O tema foi “Quais Equipamentos Públicos Podem Reduzir a Sobrecarga das Mulheres?” | Foto: Reprodução/TV Câmara de Petrópolis
Por Leandra Lima
A Comissão de Direitos das Mulheres da Câmara Municipal organizou na última sexta-feira (28), uma audiência pública que debateu políticas públicas voltadas para as mulheres, com o tema “Quais Equipamentos Públicos Podem Reduzir a Sobrecarga das Mulheres?”, onde foram destacados pontos sobre a carga de trabalho que o grupo enfrenta na sociedade por praticarem jornadas triplas, ou seja, tendo em sua responsabilidade gerenciar o lado profissional, os afazeres domésticos e a família.
Participaram da plenária, a vereadoras Júlia Casamasso (Psol), que é a presidente da pasta, a parlamentar Professora Lívia (PcdoB), Rosangela Stumpf, Chefe de Gabinete e Secretária de Direitos e Políticas para as Mulheres, Adriana Kreischer, Secretária de Assistência Social, da Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM), Gláucia de Fátima Barban Morelli, além de representantes do Projeto Reage Mãe, Daniela Freitas, da Coletiva Feminista Popular, Carolina Bess, e de lideranças comunitárias e especialistas em políticas públicas.
Sobre o tema, Júlia destacou o papel das mulheres na sociedade, ressaltando o protagonismo feminino frente às mudanças, ela também trouxe a invisibilidade desses corpos que atuam em todas as esferas sociais. “Queria primeiro dizer que quem consegue fazer esse diagnóstico preciso da sociedade, olhar para estrutura e ler o que está acontecendo e fazer diagnóstico, são as mulheres. Por quê? Porque são elas que vivem a sociedade, que estão em todos os espaços, que levam os filhos para as escolas, que usam transporte público, os equipamentos de saúde. Mas na sociedade que a gente vive, na sociedade capitalista, patriarcal principalmente, as mulheres são colocadas numa condição de subserviência, subalternidade e servidão, elas sequer são consideradas na sua integridade enquanto indivíduo. E a gente tem os fatores sociais e culturais que colaboram para isso ainda nos dias de hoje, porque existem expectativas que são irrealistas sobre o papel das mulheres e o modelo de família que é idealizado na estrutura social atual”, disse.
A parlamentar enfatizou ainda, a herança dos papéis de cada grupo feminino e masculino, montada a décadas destinado ao que e onde a mulher deve atuar. “Então a gente tem uma divisão sexual do trabalho, onde nós mulheres somos treinadas para desempenhar uma função como se fizesse parte da nossa natureza, que é o trabalho de cuidado, porque quem está majoritariamente essa função de cuidar das crianças, dos idosos e dos lares, somos nós mulheres”, ressaltou.
A organização do sistema patriarcal enfatiza e estreita os estereótipos do que a mulher deve fazer ou não. Por mais que a ideia tenha sido criada nos primórdios da sociedade, afeta diretamente a saúde do grupo, que é o responsável por cuidar de todos. Isso demonstra o quão desigual é a distribuição das demandas, deixando para as mulheres a responsabilidade do cuidado familiar, além do trabalho doméstico, entre outros afazeres que em sua maioria não são remunerados. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-c) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, as mulheres dedicaram cerca de 21,7 horas semanais para o trabalho doméstico e cuidados não remunerado, em contraponto os homens doaram apenas 11 horas.
Nesse parâmetro, conforme dados da Organização Internacional do Trabalho, 76% do ofício não remunerado é realizado por mulheres, o que corresponde a um valor estimado de US$ 11 trilhões por ano. “Pra efeito de comparação, uma forma mais material porque eu não sei vocês, mas pensar em trilhões é algo quase inconcebível, é como se as mães e as donas de casa do mundo pudessem comprar, por ano, 10 mil estádios do porte do Maracanã. O estado, o sistema em que vivemos que nos treina desde o nascimento, imputando a nós essas tarefas como se fizessem parte da nossa natureza, chamam essas tarefas de amor, mas nós chamamos de trabalho não remunerado”, enfatizou Júlia Casamasso.
Dados do estudo Estáticas de Gênero do IBGE, fazem um recorte racial sobre a sobrecarga enfrentada por brasileiras, em 2022, enquanto as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidado de pessoas, os homens gastaram 11,7 horas. As mulheres pretas ou pardas dedicaram 1,6 hora a mais por semana nessas tarefas do que as brancas.
Frente aos dados, foi salientado na audiência a importância de mapear e utilizar as ferramentas públicas para fomentar políticas voltadas para garantir avanços concretos em pautas que promovam a dignidade, segurança e integridade feminina. Nesse contexto, a vereadora Professora Lívia trouxe para a plenária a possibilidade de criar uma “Política Municipal dos Cuidado”, destacando a importância de ações para atender a demanda por vagas nas creches e o suporte às mães atípicas, que muitas vezes são as principais cuidadoras de seus filhos.