Rapidez e aceleração são algumas características do mundo contemporâneo, onde se preza pelo imediatismo. Nessa onda, coisas que vão contra esse princípio são vistas como algo fora do padrão normativo, o que causa estranhamento nos indivíduos. É aí que o artista Brendon Botelho de Souza, de 28 anos, traz uma reflexão sobre a vida enquanto trabalha no centro urbano de Petrópolis como estátua viva. A expressão artística que usa o corpo como ferramenta exige do praticante estabilidade e mobilidade para controlar os movimentos que parecem imperceptíveis aos olhos.
“A arte toca as outras pessoas e causa até uma reflexão nos dias atuais. Com um mundo tão acelerado, ter uma estátua viva no meio da praça e em outros espaços urbanos é considerado por mim como um ato de resistência”, expressou Brendon.
Um dos momentos que o fez reafirmar esse pensamento foi quando ajudou uma mulher a não desistir da vida. “Teve um dia que estava trabalhando, encontrei uma moça que estava chorando, lembro disso até hoje. Ela botou dois reais na minha caixinha e, como de costume, entrego uns bilhetinhos que contêm uma mensagem motivacional para ajudar as pessoas no dia a dia. E foi aí que essa mensagem caiu no dia que ela estava precisando muito. Pegou a mensagem e saiu andando. Depois voltou correndo, olhou pra mim e disse que fiz o dia dela mais feliz e me pediu um abraço”, contou.
Esse episódio foi um ponto que fez o artista relembrar o porquê começou nessa trajetória, mesmo enfrentando certas dificuldades, como a não garantia de renda.
Início da trajetória
Brendon iniciou as performances de estátua viva em 2019, quando estava procurando emprego. Começou trabalhando como animador de festas e, em uma dessas experiências, encontrou um artista que performava uma estátua viva, muito conhecido na Cidade Imperial, o “Anjo”, que o ajudou a se autoproduzir e o ensinou sobre o fazer artístico. O primeiro personagem vivenciado pelo jovem foi o prateado, apelidado por espectadores de cowboy por conta do chapéu. Esse foi um dos personagens mais desafiadores, já que Brendon ficava em uma posição “flutuante”, como se estivesse sentado em uma cadeira imaginária.
A partir dessa primeira experimentação, tomou gosto pela coisa e começou a investir. Logo em seguida veio a pandemia, um obstáculo para o artista de rua. Em meio ao lockdown em 2020, ele sofreu com depressão, mas a avó o incentivou a perseguir o sonho na arte, que vem sendo cultivado desde os oito anos de idade. Brendon Botelho também faz cosplay de anime e outros personagens.
Agarrado ao sentimento de esperança, o performático buscou referências na área da estátua viva e montou o personagem “Dourado”, que é a marca registrada dele. “Esse personagem é baseado na história de Petrópolis, no século XIX, 1886, 1889 por aí. Onde existiam aqueles carros antigos e as pessoas usavam roupas bem estilosas, como cartolas e vestidos ornamentados. O Dourado é baseado num livro que li, que contava a história de um chapeleiro”, expressou.
Dificuldades
A arte é uma dádiva, mas não é um ócio para todos. Para os resistentes, viver dela é um presente. Para Brendon, as dificuldades vão desde o clima, a renda e o enfrentamento do preconceito. “As pessoas às vezes falam: nossa, o cara está pedindo esmola. Mas não é. O que faço é uma expressão de arte, o que peço é uma contribuição para mantê-la viva. Já cheguei uma vez a ir para casa a pé, porque não tem como não ganhar nada”, disse.
O artista informou que resiste aos julgamentos. “Muitos não conseguem entender o que é arte. Essas coisas acabam afetando o artista. Mas não desisto, porque isso é importante nos tempos contemporâneos, para que essa arte não morra”, pontuou.
Os trabalhos de Brendon podem ser acompanhados nas redes sociais, no Instagram: @brendon_cosplay e no Facebook: Brendon Souza.