Petrópolis inicia o ano de 2026 com um novo reconhecimento oficial: o de Capital Germânica do Estado do Rio de Janeiro e da Dança Folclórica Alemã. A titulação foi concedida por meio de um Projeto de Lei (PL) de autoria do deputado estadual Sérgio Fernandes, sancionado pelo governador Cláudio Castro e publicado no Diário Oficial do Estado no último 29 de dezembro.
O reconhecimento consolida a forte ligação histórica e cultural do município com a imigração alemã, que influenciou diretamente a formação urbana, arquitetônica, cultural e econômica de Petrópolis.
Influência alemã na história e na cultura
De acordo com a justificativa apresentada no projeto de lei, Petrópolis possui marcante influência germânica, perceptível tanto nos eventos culturais quanto na arquitetura da cidade. Um dos exemplos citados é o Palácio de Cristal, monumento encomendado por Cond’eu para abrigar exposições de flores e produtos agrícolas, inspirado em estruturas europeias.
Parte da história de Petrópolis
Fundada em 16 de março de 1843, a relação entre Petrópolis e os germânicos começou antes mesmo da criação oficial do município. A partir de 1837, chegaram os primeiros colonos alemães, que buscavam melhores condições de vida nas Américas, motivados por crises econômicas e sociais no continente europeu.
Outro nome fundamental nesse processo foi o do Major Júlio Frederico Koeler, ex-militar e engenheiro civil da Província do Rio de Janeiro. Ele foi responsável pelo plano “Povoação-Palácio de Petrópolis”, que previa a doação de terras da Fazenda Imperial a colonos livres para estimular o crescimento populacional e agrícola. Koeler também elaborou a planta da povoação do Palácio Imperial ( atual Museu Imperial) e da Estrada Normal da Estrela, que dava acesso à cidade. Com o avanço da urbanização, mais colonos alemães se estabeleceram em Petrópolis. Entre 1837 e 1845, mais de dois mil imigrantes chegaram ao município, atuando no artesanato e nas fábricas instaladas na região do Meio da Serra.
Quarteirões germânicos
A adaptação dos colonos alemães também se refletiu na organização territorial da cidade. Koeler batizou os quarteirões com nomes das regiões de origem dos imigrantes, dando origem a áreas conhecidas como Mosela, Palatinato, Renânia, Nassau, Bingen, Ingelheim, Simeria, Castelânia e Westphalia. Dois quarteirões também homenagearam a Família Imperial: Vila Imperial e Vila Teresa.
Em 1854, Otto Reimarus, que deu continuidade ao trabalho de Koeler em Petropolis, criou novos quarteirões como Darmstadt, Woerstadt e Worms. Essas denominações podem sofrer alterações com o atual projeto de abairramento de Petrópolis.
Reconhecimento oficial
Para o autor do projeto, deputado Sérgio Fernandes, a sanção da lei é motivo de comemoração, “A sanção dessa Lei, que declara o município de Petrópolis como Capital Germânica do Estado do Rio de Janeiro e da Dança Folclórica Alemã, é uma grande vitória para a nossa cidade e para toda a Região Serrana. Esse reconhecimento oficial consolida uma história que começou no século XIX, com a chegada dos imigrantes alemães, e que até hoje marca a arquitetura, a cultura, a gastronomia e as tradições de Petrópolis”, citou.
Bauernfest: símbolo da cultura germânica
Outro marco da presença alemã em Petrópolis é a Bauernfest, tradicional Festa do Colono Alemão, realizada anualmente e que reúne música, dança e gastronomia típicas. Organizado pela Prefeitura em parceria com o Clube 29 de Junho, o evento atrai moradores, descendentes de colonos e turistas, fortalecendo o comércio, a hotelaria e o turismo.
A festa teve início como celebração comunitária entre filhos e netos de imigrantes. A primeira edição oficial ocorreu em 1990, embora as celebrações tenham começado em 1982, idealizadas pela então presidente do Instituto Histórico de Petrópolis, Ruth Judice, em parceria com o Clube 29 de Junho, presidido à época por Carlos Rheingantz.
Grupos folclóricos alemães
Atualmente, Petrópolis conta com sete grupos folclóricos alemães, que participam ativamente da Bauernfest com apresentações de danças típicas:
- Grupo Folclórico Germânico Bergstadt
- Bauerngruppe Danças Folclóricas Alemãs de Petrópolis
- Mosel Volkstänze de Petrópolis
- Rheinland Pfalz Danças Folclóricas
- Kaiserstadt Kulturkreis
- Petrópolis Danças Folclóricas
- Blumenberg Volkstanz
Os grupos integram a Associação dos Grupos Folclóricos Alemães de Petrópolis (AGFAP), responsável pela organização das apresentações durante o evento.
Impacto no turismo
Para o secretário de Turismo de Petrópolis e descendente de alemães, Pablo Kling, o título fortalece o legado da colonização germânica e amplia as oportunidades para o setor:
“O reconhecimento de Petrópolis como Capital Germânica do Estado do Rio reforça o legado da colonização alemã na cidade e valoriza suas tradições culturais. Para o turismo, o título amplia a visibilidade de Petrópolis e fortalece a Bauernfest, segunda maior festa germânica do Brasil, aumentando as possibilidades de arrecadação de patrocínios e investimentos. O decreto abre novas oportunidades de promoção turística e consolida a Bauernfest como um dos principais eventos culturais do país”, disse.
O Clube 29 de Junho
Criado em 1959, o Clube 29 de Junho é uma instituição sem fins lucrativos e que tem o objetivo claro: manter viva a história e a memória dos colonos alemães. Para Pedro Paulo Troyack Filho, diretor de comunicação do Clube, a titulação notabiliza Petrópolis ainda mais na história e cultura. “Com essa lei estadual, aprovada na Assembleia Legislativa e sancionada pelo Governador, a cidade de Petrópolis se notabiliza em mais dois de seus inúmeros elementos da cultura e da história. É um reconhecimento importante, demonstrando que tais aspectos, o de Capital Germânica do Estado do Rio e o da Dança Folclórica Alemã, validam oficialmente a contribuição dos colonos que chegaram a partir de 1845 para a construção e o progresso da cidade, que comemorou neste ano os 180 anos de presença em Petrópolis.
Também é necessário destacar a importância das atividades desenvolvidas pelos grupos de dança folclórica alemã, atuantes a décadas em nossa cidade e para além dela. São crianças, jovens e adultos que se dedicam incansavelmente para preservar essa manifestação cultural e artística, quer seja na Bauernfest ou em outras festividades similares, levando a cultura petropolitana a outras paragens de todo o Brasil.
Mas, é importante frisar que, a letra da lei em uma folha de papel não tem poder algum, se não gerar uma ação prática e que de fato traga um resultado visível e palpável. Hoje, por exemplo, o Clube 29 de Junho e outras nove entidades, protocolaram no gabinete do Prefeito, uma carta aberta, onde manifestam grande preocupação com a lei que está para ser apresentada à Câmara Municipal, onde está previsto uma grande alteração no “abairramento” da cidade. Se esse projeto mantiver a proposta de sua primeira versão, haverá um apagamento dos Quarteirões Históricos de nossa cidade. Esses Quarteirões estão na planta de fundação do núcleo urbano que recebeu esses germânicos, agora homenageados na lei estadual, mas que aqui na cidade perdem reconhecimento e importância. Isso porque, com o fim dos Quarteirões o elemento primeiro de nossa história, que é a Planta de 1846, estabelecida por Júlio Koeler, e que completará 180 anos em 2026, deixará de existir na vida da cidade. Isso é uma tragédia histórica. Precisamos que o prefeito nos receba e nos ouça, que entenda que esse abairramento pode causar um grande estrago no âmbito da história local e na vida dessa numerosa comunidade de origem germânica”, comentou.
Museu Casa do Colono Alemão
Fortalecendo o legado histórico, Petrópolis abriga o Museu Casa do Colono Alemão, construído nos prazos de terra nº 1632 e 1633, pertencentes ao imigrante Johann Gottlieb Kaiser. A residência, construída em pau a pique, com madeira no vigamento e colunas sobre alicerces de pedra, representa a arquitetura popular germânica.
O imóvel se tornou museu em 1976, durante as comemorações do aniversário da cidade. O acervo reúne utensílios domésticos e de trabalho, mobiliário, fotografias e objetos pessoais, fruto de parceria entre o Clube 29 de Junho, o Instituto Histórico de Petrópolis, descendentes de colonos e o Museu Imperial.