Por Gabriel Toledo
Localizado em uma área de difícil acesso em Petrópolis, o Quilombo do Tapera carrega 178 anos de história, resistência e pertencimento. Cercada por montanhas, a comunidade quilombola enfrenta, diariamente, desafios que vão muito além da distância geográfica. A falta de titulação das terras impacta diretamente o acesso a serviços básicos, como transporte público, saúde, energia elétrica e infraestrutura. Sem o reconhecimento oficial do território, direitos fundamentais permanecem suspensos. O resultado é um cenário de isolamento social que afeta a rotina dos moradores e compromete a dignidade da comunidade.
Transporte precário e deslocamento forçado
A ausência de transporte público regular é um dos principais problemas enfrentados pela comunidade. Para chegar ao ponto de ônibus mais próximo, localizado na região do Vale do Cuiabá, os moradores precisam caminhar cerca de duas horas. O trajeto, feito por vias íngremes e em condições precárias, dificulta o acesso ao trabalho, ida para escola, consultas médicas e à espaços públicos onde a comunidade poderia reivindicar seus direitos.
Atualmente, os moradores utilizam um ônibus escolar como alternativa de deslocamento, solução considerada insuficiente e temporária. Sem horários regulares e sem conforto, o veículo não atende às necessidades da população. “Hoje a nossa luta, além da titulação das nossas terras, é por um transporte público melhor para a população em si”, afirma a líder quilombola Denise André Cassiano.
Para a dona de casa Isabel de Fátima, a dependência do ônibus escolar impõe uma rotina desgastante. “Eu desço todo dia com o ônibus escolar para fazer meus curativos, que passa aqui 07h30. O horário de volta para o quilombo é 11h30, ou seja, ainda tenho que esperar muito tempo para voltar para casa”, relata.
Ela conta que já perdeu o ônibus e precisou aguardar horas para conseguir atendimento. “Seria muito bom ter um veículo desse aqui na localidade, já que não teria que depender do ônibus escolar. Teve um dia que perdi o ônibus escolar, tive que esperar até 13h00 para descer e fazer meu tratamento.”
Saúde distante e acesso limitado
A precariedade do transporte também compromete o acesso à saúde. No Tapera, não há posto de atendimento médico que colocam a comunidade em situações de vulnerabilidade. “Até o médico passamos por muita demora, já que não temos nenhum posto de saúde”, relata Denise André Cassiano.
Em um episódio recente, uma moradora passou mal e não conseguiu atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Segundo a líder quilombola, a justificativa foi a dificuldade de acesso ao território. “Ligamos para o SAMU, não quiseram vir. Foi relatado que não tinham condições de chegar e não tinham a localização. Por conta disso, tentamos acionar o Ministério Público solicitando apoio e não mudou muita coisa.”
Infraestrutura precária e serviços instáveis
Além da saúde e do transporte, a infraestrutura básica é outro desafio constante. A comunidade enfrenta instabilidade no fornecimento de energia elétrica, com longos períodos sem o serviço. “Nós temos energia elétrica, mas quando acaba, é muito difícil do sistema se reestabelecido. Já ficamos uma semana sem o serviço”, conta Denise.
A falta de investimentos reforça a sensação de abandono por parte do poder público. Para a cientista social Luiza Wehbe Sabino, que desenvolve um projeto de doutorado sobre o quilombo, o problema não é a distância, mas a invisibilização histórica da comunidade. “As pessoas falam que o Quilombo do Tapera é longe, tem pouca gente. Mas não, o Tapera ficou longe e tem muita gente, o povo foi invisibilizado ao longo do tempo. Reparei ao longo do meu projeto que há uma falta de vontade do município em fazer seu dever constitucional”, afirma.
Titulação das terras: o centro da luta
A ausência da titulação das terras é apontada como o principal entrave para a implementação de políticas públicas no Tapera. Sem o reconhecimento oficial como território quilombola, o acesso a investimentos e programas governamentais fica comprometido. “A titulação vai fortalecer e dar mais visibilidade ao nosso território, porque dessa forma, será mais fácil a chegada de incentivos fiscais”, explica Denise André Cassiano.
A pauta ganhou espaço em uma audiência pública realizada pela Câmara Municipal de Petrópolis, em agosto de 2025, que debateu a regularização fundiária do quilombo. Para a vereadora Júlia Casamasso, a titulação representa uma reparação histórica. “O que nos reúne aqui é um direito fundamental, de uma dívida histórica, de uma urgência coletiva: garantir que o Quilombo do Tapera tenha seu território reconhecido, protegido e titulado”, afirmou. Segundo a parlamentar, o debate vai além da posse da terra. “Falar de titulação é falar da permanência na terra com dignidade, é falar sobre o racismo estrutural que se expressa na desigualdade fundiária, na formação do Estado e na invisibilização dos saberes e dos modos de vida dos quilombolas.”
Resistência e futuro
Apesar das dificuldades, o Tapera segue como símbolo de resistência. A comunidade sonha com autonomia econômica e com o fortalecimento do turismo de base comunitária, mas esbarra na falta de incentivos. “O nosso maior sonho é sair do regime CLT e ser uma comunidade autossustentável, mas sem incentivos nossos sonhos ficam cada vez mais distantes. Nós vamos resistir para melhorar essa situação”, afirma Denise.
Para a doméstica Alessandra André Barbosa, a ausência de transporte também impede a participação política. “Não tem como sair daqui para ir até esses espaços. Nós temos que enfrentar duas horas a pé para pegar o ônibus mais próximo, o Vale do Cuiabá. É uma viagem ir no centro da cidade e buscar nossos direitos.”
Enquanto aguarda a titulação, o Quilombo do Tapera segue lutando para ser visto. “A gente sente que os nossos gestores municipais não nos reconhecem como uma comunidade quilombola. Eles nos visitam, sabem que nosso território existe, fazem suas fotos e vão embora”, conclui Denise.
A história do Tapera é marcada pela resistência. Uma resistência que, quase dois séculos depois, ainda precisa ser travada para garantir direitos básicos e o reconhecimento de um território que nunca deixou de existir.
Posicionamentos
Em nota, a Enel informou que instalou, neste ano, um religador na rede que abastece o Quilombo do Tapera. Segundo a concessionária, o equipamento atua em casos de oscilação de energia, permitindo a normalização do serviço sem a necessidade de intervenção de técnicos. A empresa informou ainda que, até o fim do ano, um novo religador deve ser instalado na localidade.
A Prefeitura de Petrópolis afirmou que, por meio de uma parceria com o Governo do Estado, foi realizada a pavimentação em concreto no trecho que dá acesso ao quilombo. De acordo com o município, seguem em andamento os ajustes finais de sinalização e a pavimentação de alguns pontos considerados necessários para a circulação segura de um micro-ônibus, já que veículos de maior porte não conseguem completar algumas curvas do percurso.
Já a concessionária Águas do Imperador informou que implantou uma fossa filtro na localidade. Segundo a empresa, a solução atende às necessidades da comunidade. A concessionária afirmou ainda que foram doados os materiais para viabilizar as redes de coleta de esgoto e de abastecimento de água no Quilombo do Tapera.