Do pioneirismo da primeira cervejaria do Brasil ao fortalecimento das artesanais, cidade transforma herança cultural em motor de turismo e desenvolvimento econômico
Petrópolis sempre foi associada à memória do Brasil Imperial, às construções históricas e ao clima serrano que moldou sua identidade ao longo dos séculos. Nos últimos anos, porém, a cidade passou a ocupar também um lugar de destaque no mapa cervejeiro nacional. Reconhecida oficialmente como capital cervejeira do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis consolida um título que traduz uma história construída com tradição, empreendedorismo e inovação.
A relação da cidade com a cerveja atravessa gerações. Desde a chegada dos imigrantes europeus, especialmente alemães, no século XIX, a bebida passou a integrar o cotidiano local. A qualidade da água da Serra dos Órgãos e as condições climáticas favoreceram o desenvolvimento da atividade, criando um ambiente propício para o surgimento de grandes marcos do setor.
Da origem industrial ao reconhecimento histórico
Foi em Petrópolis que nasceu, em 1853, a Cervejaria Bohemia, considerada a primeira do Brasil e responsável por lançar as bases da indústria cervejeira nacional. 140 anos depois, em 1993, a Itaipava ampliaria esse legado ao projetar o nome da cidade para todo o país, consolidando Petrópolis como um polo estratégico da produção cervejeira. Essas grandes fábricas ajudaram a construir não apenas uma atividade econômica, mas uma identidade que permanece viva na cidade.
Para o especialista em marketing turístico e pesquisador do turismo cervejeiro, Pablo Kling, o reconhecimento oficial como capital cervejeira legitima uma vocação construída ao longo do tempo. “Esse reconhecimento cria uma identidade territorial ligada à cultura da cerveja e posiciona Petrópolis como referência estadual. Ele amplia as possibilidades do turismo gastronômico, rural e de experiências”, avalia. Segundo ele, o avanço do cultivo do lúpulo na região serrana reforça esse movimento e abre novas frentes para o agroturismo.
A força das artesanais e o empreendedorismo local
Se o passado foi marcado pela indústria, o presente é moldado pela diversidade das cervejarias artesanais. Petrópolis concentra hoje o maior número de microcervejarias do Estado do Rio de Janeiro, reunindo produtores que combinam técnicas tradicionais com inovação.
Para Leandro Leal, vice-presidente da Associação das Microcervejarias de Petrópolis (AMP), o título de capital cervejeira representou um divisor de águas para o setor. “Esse reconhecimento deu visibilidade ao trabalho dos produtores locais, fortaleceu o turismo cervejeiro e ajudou a consolidar Petrópolis como destino. É um impulso importante para a economia criativa da cidade”, afirma.
Entre essas histórias está a da Tortuga Craft Beer, criada em 2017 a partir da experiência do Brunão Chopp Delivery, ativo no mercado desde 2007. Diferentemente de muitos produtores artesanais, a cerveja sempre foi tratada como negócio. Agora, a marca se prepara para um novo capítulo com a abertura da fábrica própria no Centro Histórico, dentro do complexo Fábrica Park, instalado na antiga Fábrica São Pedro de Alcântara.
Para o sócio-fundador Bruno da Silva Santos, produzir cerveja em Petrópolis é motivo de orgulho e também de responsabilidade. “É uma satisfação muito grande fazer parte desse momento junto a marcas reconhecidas. Ao mesmo tempo, existe a responsabilidade de produzir com excelência e ajudar a elevar o nome da cidade”, destaca. Ele ressalta que o título atrai turistas, mas avalia que o impacto poderia ser ainda maior com ações mais amplas de valorização da identidade cervejeira. “Petrópolis também é o berço cervejeiro do Brasil, um título histórico que ainda é pouco conhecido e divulgado”, observa.
Turismo cervejeiro, eventos e desafios
O fortalecimento do turismo cervejeiro se reflete em festivais, rotas temáticas e eventos que atraem visitantes ao longo do ano. Essas iniciativas movimentam a hotelaria, a gastronomia e o comércio local, além de aproximarem o público dos produtores. Para as cervejarias, os eventos funcionam como vitrines e espaços de contato direto com o consumidor.
Apesar do crescimento, os desafios permanecem. A concorrência com grandes indústrias e a elevada carga tributária exigem criatividade e estratégias próprias para que as microcervejarias se mantenham competitivas, apostando na qualidade, na diversidade e na autenticidade como diferenciais.
Por: Gabriel Toledo/Foto: @microcervejariasdepetropolis