Cerca de 500 famílias atípicas podem ficar sem assistência
Por Leandra Lima
O Grupo Amigos dos Autistas de Petrópolis (GAAPE), que atende cerca de 500 famílias atípicas, pode ter os atendimentos comprometidos devido ao atraso nos repasses municipais da Prefeitura de Petrópolis. A denúncia foi feita pela coordenadora técnica, Márcia da Silva Loureiro, que informou que os profissionais da área da saúde não vêm recebendo os pagamentos em dia há cerca de três meses. Antes da última sexta-feira (27), a secretária de Saúde efetuou o repasse referente ao mês de novembro, correspondente a dezembro.
Além da Saúde, a instituição tem outros convênios com a Prefeitura que também vêm apresentando instabilidades. “O GAAPE, para receber o salário dos profissionais, tem que ficar com pires na mão, pedindo todo mês. A Secretaria de Saúde, o último foi em novembro, há três meses que não tem. A Secretaria de Educação atrasou. As emendas municipais não chegaram. O convênio com a Secretaria de Assistência Social informou que um mês é onze meses. Qual é o profissional que vai trabalhar onze meses sem carteira assinada, sem vale-transporte e salário, só no amor?”, relatou Márcia.
O GAAPE trabalha em rede em conjunto com a Prefeitura. Segundo a coordenadora, a situação impacta diretamente os assistidos, que recebem apoio jurídico, clínico e social dentro do grupo. “O impacto sofre todo mundo. Uma instituição que tem 500 famílias envolvidas e 65 profissionais, se parar, a Prefeitura vai ter que dar conta de todos eles”, ressaltou.
Márcia enfatiza que, apesar da situação, os profissionais continuam trabalhando para garantir a assistência aos pacientes e expressa que a falta de comunicação e transparência do órgão público é um descaso para com o grupo. “Situações de descaso mesmo com quem está trabalhando. Não falo dos profissionais da Prefeitura, com quem trabalhamos em rede. Temos parcerias em rede maravilhosas da Prefeitura. Falo da gestão. Tenho que pagar os funcionários. Quando não tem isso, eu fico numa situação muito delicada. Os funcionários estavam sem receber desde dezembro. Eles falaram que era mentira. E pagaram na sexta”, contou.
Após o acerto, ainda faltam os salários de janeiro e fevereiro. “Como que você segura funcionários bons, funcionários que têm especialidade, que estudam muito, com essa demora no pagamento?”, indagou a coordenadora.
Mobilização
A instituição vai promover um ato nesta segunda-feira (02), às 14h, em frente à sede da Prefeitura para reivindicar os atrasos. Além do GAAPE, vereadores demonstraram apoio à causa e questionaram a falta de pagamentos.
A parlamentar Gilda Beatriz (PP) informou que existem R$ 1,5 milhão de emenda federal destinada pelo deputado federal Hugo Leal para 13 instituições do município e que o valor já está na conta da Prefeitura desde outubro, aguardando, segundo ela, apenas análise e liberação da Secretaria de Assistência Social.
Prefeitura alega inconsistências
Em razão dos atrasos nos repasses, a Prefeitura informou que os repasses vêm sendo realizados com regularidade, conforme previsto, e alegou que a situação se dá pelo atraso na entrega e pelas inconsistências na documentação de responsabilidade da instituição, que têm impactado o andamento do processo e, consequentemente, a liberação do pagamento.
Diante da alegação, a coordenadora refutou, dizendo que não houve essa situação. “É engraçado que a gente não tem só o convênio com a Secretaria de Saúde e com a Prefeitura. A gente tem também os convênios da Secretaria de Educação, as emendas, tudo que envolve eles, temos em prestação de contas”, informou.
Não é o único afetado
De acordo com Márcia da Silva Loureiro, não foi só o GAAPE que foi afetado, outras instituições, como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), também enfrentam dificuldades. “Agora estão aparecendo também as outras pessoas que estavam com medo de falar. É a APAE, é a Pestalozzi, é o Lar de Santa Catarina e todas as instituições que ali transitam nos conselhos. Então, nós vamos ficar sem pagar o mês de janeiro dos profissionais que estavam na Assistência Social. Porque a gestão dele não se organizou para fazer o chamamento público. Isso é um absurdo acontecer”, destacou.
Trabalho não pode parar
Conforme destaca a psicóloga Poliana Seabra, profissional atuante na instituição, o trabalho do GAAPE não pode parar pelo fato da descontinuidade dos tratamentos iniciados por um paciente com espectro autista. “Trabalhamos diariamente com crianças e adolescentes dentro do espectro autista, oferecendo atendimento especializado, direcionado à evolução, ao desenvolvimento e, acima de tudo, ao acolhimento. Não podemos aceitar que uma instituição com um peso tão grande para a cidade enfrente, mês após mês, incertezas e dificuldades que colocam em risco a continuidade de um trabalho essencial”, disse.
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