Por: Leandra Lima
A beleza sempre foi um tabu na sociedade, tanto em tempos antigos quanto na contemporaneidade. Pairava no ar a beleza fatal, principalmente ligada aos corpos femininos, que era reforçada principalmente em concursos de beleza como o de Miss. Isso recentemente mudou, os concursos atuais buscam algo a mais, que soma com as histórias, propósitos e identidades de uma participante.
“Os concursos hoje precisam mostrar que beleza não é um padrão único. Beleza é a soma das nossas histórias, das nossas identidades e do propósito que cada uma carrega. Quando uma candidata sobe ao palco, ela não está levando só um vestido bonito ou uma preparação estética. Está levando a trajetória dela, as dificuldades que enfrentou e tudo aquilo que representa para a comunidade de onde vem”, contou Jéssica Areias, Miss Oficial Universo Petrópolis 2023.
Conforme a miss, atualmente se preza por propósito e pela empatia ao próximo, além de dar exemplo em relação aos estudos. “Seja ter um projeto social ativo, ou então participar de um projeto, fazer voluntariado, entre outros. Além disso, existe uma grande valorização da educação. No Miss Universo, por exemplo, as participantes precisam estar na universidade ou então já serem formadas”, disse.
Ainda é preciso seguir um padrão para chegar nesses espaços, porém está se tornando mais acessível para meninas que sonham com o título alcançarem um lugar na corrida.
Novo olhar
Atualmente os concursos não pregam um padrão de beleza que se encaixe em uma única característica. “Tanto que não existem mais regras de altura, peso ou medidas. A maior parte dos grandes concursos já aboliu regras como um limite máximo de idade ou a exigência de mulher solteira e sem filhos. O Miss Universo, que ainda é o concurso de beleza mais conhecido, há três anos atrás só aceitava mulheres de no máximo 28 anos, solteiras e sem filhos. Eles foram o primeiro concurso a abolir essas regras e hoje já vimos mulheres com mais de 60 anos competirem e se saírem muito bem”, ressaltou.
Além disso, também é explorado o lado social. Em Petrópolis, as misses criam projetos voltados à população mais vulnerável. “Temos diversas causas precisando de apoio. Por exemplo, a Lis Malta, que na semana passada ficou em quinto lugar no Miss Brasil Supranacional, além de ter se voluntariado na época da tragédia socioambiental de 2022, criou o projeto social ‘Inefável’, que faz arrecadações de doações para crianças de comunidades carentes”, contou Jéssica Areias.
Jéssica, que atualmente está concorrendo ao Miss Brasil Cosmo, também informou que contribuiu com projetos. “Criei a campanha ‘A beleza tá no sangue’, que busca incentivar a doação de sangue na cidade, principalmente em épocas festivas, onde o número de doações cai drasticamente. Em contrapartida, são as épocas em que mais é necessário, devido ao alto índice de acidentes”, disse.
Petrópolis berço da beleza
Petrópolis é conhecida como berço de artistas, pelo fato de ter grandes nomes globais originados da cidade. Além desse marco, o município é precursor nas artes em geral, sendo o primeiro a mandar a primeira brasileira para o Miss Universo em 1954. Conforme contou Jess Areias, essa figura foi a baiana Martha Rocha, que conquistou o segundo lugar na competição mundial. Na época, ela ficou tão famosa que foi inspiração para marchinhas de carnaval.
Tradicionalmente, como forma de manter a cultura dos concursos de beleza, as misses de Petrópolis se dedicam a preparar outras misses também. “A Lis Malta, Miss Rio de Janeiro Supranacional 2026, Nathalia Kling, também Miss Rio de Janeiro em 2022, e Jess Areias, Miss Rio de Janeiro FNBI 2023, nos dedicamos a ensinar outras meninas que também sonham em seguir o caminho”, ressaltou a miss.
Autoestima
No universo dos concursos, apesar das modificações, é quase impossível não pensar na pressão estética que se aflora nas redes sociais. E isso prejudica mentalmente a saúde de muitas mulheres. No entanto, existem abordagens sobre o que é real ou não nas redes apresentadas pelas meninas que entram nesses concursos. “Ao mesmo tempo em que as redes sociais podem aumentar a pressão, vemos nelas uma oportunidade de humanizar quem está competindo. Mostrar que por trás da faixa existe uma pessoa de verdade, com dias bons e dias difíceis, que também cuida da própria saúde mental e aprende no processo. Pra mim, isso também faz parte da beleza”, enfatizou Jéssica.
Jéssica contou ainda que entrar em concursos mudou a própria percepção de si. “Acredito veementemente que os concursos de beleza ajudam a autoestima das mulheres, e digo isso por experiência própria, pois tinha muitos problemas com a minha imagem antes de começar a competir. Me achava feia e não me cuidava muito. Quando decidi competir, pois era um sonho de criança, entendi que me cuidar não era apenas me enfeitar, era cuidar da saúde”, ressaltou.
Outra coisa que ficou diferente foi entender que há diversas formas de beleza. “Cada pessoa tem seu tipo de beleza e é exatamente por isso que existem tantos concursos diferentes, pois cada um busca uma mulher diferente”, enfatizou.
Hoje os concursos envolvem mulheres de todas as alturas, pesos, cores de pele e classes sociais. “No Miss Universo, mulheres muçulmanas usam hijab e, pela primeira vez na história, existe a opção de trajes de banho cobertos. Isso mostra o quanto a decisão da mulher prevalece e que não precisamos mais nos sujeitar ao que não queremos”, concluiu.
Para Jéssica, o concurso de beleza é uma forma de empoderamento feminino e está atualizando as regras em conformidade com o real movimento das mulheres em uma sociedade que ainda é patriarcal.