Abrigo é sinônimo de proteção, acalanto e refúgio. Para muitos, o lar físico, complementado pela comunhão da família, significa exatamente isso. No entanto, as características atuais da sociedade brasileira demonstram que muitas famílias encontram o conforto apenas em companhia dos pares, sem uma casa para servir de amparo, ficando vulneráveis aos perigos das ruas. Eles normalmente se tornam invisíveis aos olhos sociais, porém, no espetáculo infantil “Abrigo”, do Coletivo Veredas, que chega neste domingo (15), às 16h, no Centro Cultural Sesc Quitandinha, essas histórias são as protagonistas, provocando a reflexão sobre direito à cidade e moradia. O evento é pago e os ingressos custam entre R$ 7,50 e R$ 15.
A trama traz a realidade de uma família que é desapropriada da própria casa para a construção de uma obra pública, conhecida como linha 3 do metrô, que ligaria algumas partes do Estado do Rio de Janeiro: as localidades de São Gonçalo e Niterói. A narrativa acompanha os personagens que vagam pela cidade à procura de um abrigo. E, no meio da violência urbana, retornam às ruínas do lugar que um dia foi morada. “Nesse processo para a construção desse metrô que nunca foi concretizado, aconteceram algumas desapropriações. E o espetáculo tem como tema principal essa questão. A partir disso, eles saem da casa e vão tentar a vida fora, e ali sofrem diversas violências e retornam para o que um dia era um lar”, contou a atriz do espetáculo, Jéssica Barreto.
Olhar lúdico
O teatro é uma arte encantadora que, desde seu surgimento na forma mais primitiva, tem sido lido como uma ferramenta de transformação social, já que é o espelho da sociedade. Diz a lenda que o “Theatron” (teatro, em grego) nasceu da mais pura necessidade do ser humano de expressar algo, pois provoca nos espectadores empatia, indignação, senso de justiça, entre outros variados sentimentos. Nesse sentido, a peça utiliza bem esses aspectos, pois conta todo o processo através do olhar de uma criança, que vivencia a situação junto à família. “Por muitos momentos a história é contada através da perspectiva dessa criança, do olhar dela. E aí a gente envolve diversos temas dentro da peça. A questão da vulnerabilidade social, essa parte mesmo da falta de políticas públicas, mas tudo isso num lugar lúdico ao mesmo tempo”, disse Jéssica.
Uma curiosidade que instiga ainda mais os espectadores a entender e ressoar o tema é a linguagem conhecida como “gromelô”, uma espécie de idioma criado que, para ser compreendido, precisa do apoio gestual, sonoro e imagético da cena. Criando então a ideia de que, para sentir algo, não é necessário sempre falar no mesmo “idioma” ou expressar sons conhecidos por muitos, remetendo a uma criança que ainda não sabe se comunicar com palavras, mas sim com gestos e expressões.
“Apesar de sua temática pertencer ao âmbito do chamado ‘universo adulto’, buscamos trabalhar, a partir de pesquisas, leitura e entrevistas, sob uma perspectiva da criança, o que acaba transformando as situações mais adversas e dramáticas em suporte para o jogo, a brincadeira e a poesia, sem banalizar o seu real impacto social”, afirma o diretor-geral Reinaldo Dutra.
Montagem
Segundo a atriz, Jéssica Barreto, o espetáculo surgiu de uma cena curta e de outras provocações sociais que estimularam a criação. “Na época não fazia parte do coletivo, mas ele nasce através de uma cena curta que tinha toda essa história, só que contada em menor tempo”, contou.
Além disso, o elenco, que é composto pelos artistas Aman Moraes, Bia Ribeiro, Emiliano Fischer, Jéssica Barreto, Michael Alves e Sandro Toledo, usa o próprio dialeto para transmitir a mensagem. “Então, a gente foi criando esse próprio vocabulário. As músicas também, vale ressaltar que também são em gromelô. Os nomes dos personagens também”, explicou Jéssica.
A construção é do grupo “Veredas Coletivo Teatral” e, conforme expresso pelos mesmos, surgiu do desejo dos jovens artistas de investigar as potencialidades do teatro gestual, da pantomima e da mímica, além dos atravessamentos com a dança contemporânea, na realização de uma cena teatral composta coletivamente. “Essa investigação vem acompanhada de um desejo de reflexão sobre as questões socioculturais e históricas acerca da formação do povo brasileiro”, ressaltaram.
Integram a ficha técnica: Direção Geral – Reinaldo Dutra; Direção Musical – Sandro Toledo; Dramaturgia – Criação Coletiva; Fotografia – Luan Citele; Programação Visual – Bia Ribeiro; Direção de Produção – Bia Ribeiro, Emiliano Fischer, Reinaldo Dutra e Sandro Toledo; Figurino: Michael Alves; Cenário: Gabriel Naegle; Iluminação: Isabella Castro; Direção Audiovisual: Alberto Sena; Câmeras: Rodrigo Freitas e Wesley Prado; Som: André Cavallo e João Paulo Gohar.