Treinadora fala sobre trajetória no esporte, desafios enfrentados pelas mulheres no futebol e o momento de expansão da modalidade no Brasil
Quando tinha apenas sete anos, a catarinense Carine Marla Bosetti assistia pela televisão à final da Copa do Mundo da FIFA 1998. A derrota da Seleção Brasileira para a França marcou profundamente a menina de Concórdia (SC), que naquele momento descobria sua paixão pelo futebol. Foi ali que nasceu o sonho de ser atleta e seguir carreira no futebol.
Quase três décadas depois, o esporte é o centro da vida de Carine, que agora está à beira do campo. Aos 35 anos, ela assumiu o comando da equipe feminina do Mirassol Futebol Clube e se tornou a primeira técnica da história do projeto feminino do clube.
Natural de Concórdia, Carine iniciou sua trajetória no futebol como atleta do tradicional Avaí/Kindermann. Já como treinadora, começou a carreira em 2017 no Napoli-SC. À frente da equipe, comandou o time em 35 partidas ao longo de quatro temporadas, entre 2017-18 e 2020-21, somando 14 vitórias, nove empates e 12 derrotas. No período, conquistou o título do Campeonato Brasileiro Feminino Série A2 em 2020, resultado que consolidou seu nome entre as jovens treinadoras do futebol feminino nacional.
Com formação em Educação Física e licenças da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Carine construiu uma carreira marcada pela qualificação profissional e pela experiência em diferentes funções dentro das comissões técnicas.
A chegada ao Mirassol ocorre em um momento de crescimento do futebol feminino no país, impulsionado pelo aumento de investimentos, pela ampliação das competições e pela preparação do Brasil para sediar a Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027.
O clube paulista também tem ampliado sua estrutura na modalidade. Como parte do projeto de formação, o Mirassol anunciou recentemente a treinadora Letícia Fernanda para comandar a equipe feminina sub-15, o que reforça o investimento nas categorias de base e no desenvolvimento de novas atletas.
Em entrevista ao Ministério do Esporte, Carine Bosetti fala sobre sua trajetória no futebol, os desafios enfrentados pelas mulheres no esporte e as perspectivas para o futuro da modalidade no Brasil. Confira a íntegra da entrevista:
Como começou sua relação com o futebol?
Eu tinha sete anos quando assisti à final da Copa de 1998. Lembro da frustração quando o Brasil perdeu e naquele momento disse para a minha mãe que queria ser jogadora da Seleção Brasileira. Comecei jogando na rua, na escola e no futsal, até que aos 17 anos tive a oportunidade de ir para o Kindermann. Foi ali que minha trajetória no futebol começou de fato.
Em que momento você decidiu seguir carreira como treinadora?
Quando entrei na faculdade de Educação Física eu já tinha essa ideia. Eu percebia que o futebol feminino ainda tinha pouca estrutura naquele momento e entendi que precisava pensar também na minha formação. Então comecei a buscar cursos, estudar e me preparar para trabalhar como treinadora.
O cenário do futebol feminino mudou desde o início da sua carreira?
Mudou bastante. Quando comecei, em 2008, a realidade era muito diferente. Muitas atletas não conseguiam viver do futebol. Hoje vemos meninas da base que já conseguem sonhar com isso, ajudar a família e construir carreira na modalidade. Ainda existem desafios, mas o crescimento é evidente.
Qual a importância de políticas de incentivo ao esporte para o futebol feminino?
São fundamentais. Eu tive bolsa atleta quando jogava e isso ajudou muito na minha trajetória. Hoje existem programas estaduais e federais que ampliam essas oportunidades. Esses incentivos são importantes para que atletas consigam permanecer no esporte e continuar se desenvolvendo.
Ser mulher e treinadora ainda representa um desafio no futebol?
Ainda existem desafios, principalmente culturais. Durante muito tempo as mulheres tiveram pouco espaço no futebol. Sempre busquei me qualificar, fazer cursos e me preparar para exercer essa função.
Você se vê como referência para meninas que sonham trabalhar no futebol?
Acredito que sim. Muitas mulheres enfrentaram desafios muito grandes para abrir caminhos no futebol. Nós costumamos dizer que “roemos muito osso”. Se a nossa trajetória puder inspirar meninas a acreditar no sonho delas e seguir no futebol, já é algo muito importante.
O que a motivou a aceitar o projeto do Mirassol?
O clube apresentou um projeto muito sério, com planejamento e estrutura. Isso foi determinante para a minha decisão. É um projeto que começa do zero, mas com visão de crescimento e com a intenção de consolidar o futebol feminino dentro do clube.
Como você avalia o momento do futebol feminino no Brasil?
Vivemos um momento importante. A preparação para a Copa do Mundo de 2027 traz visibilidade e abre novas oportunidades. O desafio é aproveitar esse momento para fortalecer estruturas permanentes, tanto nos clubes quanto nas federações e categorias de base.
Como você define o momento atual da sua carreira?
É um momento de muita alegria e de responsabilidade. Chegar ao Mirassol em um projeto que está começando é algo que me motiva muito. Estou vivendo uma etapa que sempre planejei para a minha carreira.
Assessoria de Comunicação – Ministério do Esporte
Foto: JP Pinheiro/Mirassol