Desde o nascimento, a cidade é referência nas diferentes vertentes da arte
Brilho de ouro tropical, assim era conhecida a cidade de Petrópolis, fundada em 16 de março de 1843, para ser a “Joia Rara” do Império. Desde os primórdios, recebeu e formou grandes intelectuais de diferentes vertentes da cultura, tanto da antiguidade quanto na contemporaneidade.
O território respira arte que vai desde as construções prediais a obras físicas. Resguardar essas memórias é um trabalho importante para preservar as histórias e relembrar fatos importantes dessa sociedade que foram esquecidos ou apagados dentro da janela centenária da cidade. E é exatamente isso que Lilian Regina Nogueira, artista conhecida por tia Lili, vem trabalhando ao resgatar fatos históricos ligados ao avô Deoclécio Damasceno de Freitas, homem negro que foi maestro, professor de música e musicista renomado de Petrópolis durante a primeira metade do século XX.
Há cerca de 183 anos a região é conhecida pela arte predominante europeia branca, porém ela é muito mais que isso, e a narrativa de Deoclécio é a prova disso. O maestro, original de Paraíba do Sul, nasceu em 17 de julho de 1888 e se mudou para a “Cidade Imperial” na fase adulta a convite do Capitão Castro, para ingressar no corpo musical do Clube Leopoldo Miguez e se tornou o pioneiro ao organizar o movimento Jazz Rio-Petrópolis. Chegando ao destino, foi acolhido pela família Castro.
Além disso, foi maestro e professor na Escola de Música Santa Cecília, onde foi baluarte, e também regente da Banda 1º de Setembro de Cascatinha. O musicista ensinou grandes nomes da música da sociedade petropolitana que futuramente expandiram para o território nacional, como Cezar Guerra-Peixe, que em 1929 encerrou o curso de teoria e solfejo com o professor Deoclécio Damasceno de Freitas.
Liberto
Segundo conta a neta, Lilian, no documentário “Canção para Deoclécio”, que surgiu do desejo de manter viva a memória e homenagear o avô, ele nasceu um negro livre, pois os pais eram escravos de uma fazenda em Sebolas, Paraíba do Sul. “Meu avô acompanhava a minha bisavó na ida à fazenda, nos dias em que o meu bisavô fazia os saraus. Nisso ele acompanhava de dentro da cozinha fazendo gestos como se fosse um maestro, isso é o que minha mãe contava, o que foi passado pela mãe dela”, contou.
A neta começou a procurar as histórias do maestro em 2005 e, em 2006, fez a primeira exposição sobre ele, com quadros encontrados na biblioteca da cidade. Foram expostos 12 quadros contando a linha do tempo dele na cidade. “Foi uma forma que senti naquele momento de sacudir Petrópolis. Gostaria que meus filhos soubessem da história de meu avô”, disse durante o documentário.
A peça documental foi produzida por Eriocan Arte e Cultura e Rocio Produções. Com roteiro e direção: Lina Maria Fugita; assistência de produção: Lilian Regina; pesquisa: Carol Pitzer; direção de fotografia e montagem: Yoshinori Fugita; com: Lilian Regina Marcílio Nogueira, Sandra Baruki, Branca Rezende, Filipe Graciano, Marcelo Vieira, Banda 1º de Setembro, Flávio de Freitas, Renata Oliveira de Freitas.
Estilo musical
Fugindo do padrão e da rapidez do tempo, as composições melódicas do maestro eram consideradas únicas e raras pela forma que eram arranjadas. “Existia uma Orquestra Sinfônica na Escola de Música Santa Cecília e, na construção, ele usava violinos, violas, violoncelo e sempre colocava um clarinete, trompete e um trombone, que é uma formação não muito comum, é rara. Então a sonoridade é muito atraente porque as pessoas não ouvem mais esse tipo de música hoje em dia”, expressou o regente da Banda 1° de Setembro, Marcelo Vieira, também dentro do documentário.
Conforme expressou o regente, o tratamento melódico de Deoclécio é totalmente diferente de um compositor moderno de música clássica, pois as frases melódicas dele são frases longas que contêm relevos maiores.
Tia Lili menciona que, nas partituras que foram encontradas no acervo da Escola de Música Santa Cecília pela pesquisadora do documentário, Carol Pitzer, há partituras com nomes da filhas do maestro e uma delas intitulada “Ila”, mãe da artista. “É muito lindo isso”, ressaltou.
Legado e inspiração
A trajetória de Deoclécio na música, pelo que se tem de memória, perpassa por muitos pontos, como o pioneirismo em criar diversas frentes. Ele se apresentou em grandes homenagens a aristocratas da época, como o Barão de Teffé, onde tocaram a canção “Hymno ao Barão de Teffé”, musicado pelo maestro.
Devido aos feitos, foi homenageado em 1969 com uma via recebendo seu nome, “Travessa Maestro Deoclécio Damasceno de Freitas”, localizada na Rua Teresa, no centro comercial da cidade de Petrópolis, que foi proporcionada através da Lei 2.799. Logo após, no mesmo ano, também recebeu uma homenagem da Escola de Música Santa Cecília, onde dedicou-se à música até sua morte em 1942. Foi criada a “Sala Maestro Deoclécio Damasceno de Freitas”, no dia 16 de fevereiro de 1993, na comemoração dos 100 anos da escola, com um diploma in memoriam.
Os traços da narrativa comprovam que a cidade sempre foi o berço artístico da cultura. O legado de Deoclécio continua vivo dentro da família. O neto Flávio Freitas é professor de música, igual ao avô. E a história dele está sendo resguardada pela tia Lili, que fundou o Centro de Cultura Maestro Deoclécio Damasceno de Freitas em 2025. O espaço, que fica na comunidade Vila Rica, em Pedro do Rio, oferece atividades culturais, como oficinas de teatro, aula de violão, sala para crianças, entre outras apreciações.
O resgate da memória se tornou crucial para que os feitos do musicista ecoem até hoje, mostrando que Petrópolis guarda muita riqueza histórica. Preservar essas trajetórias ajuda a ampliar as vozes dos que ajudaram a construir a identidade da cidade no âmbito artístico e social nesses 183 anos.
Por Leandra Lima/Foto: Arquivo Escola de Música Santa Cecília/ Reprodução “Canção para Deoclécio”