A possibilidade de realização de um evento carnavalesco no Palácio de Cristal reacendeu um debate antigo na cidade: a estrutura do monumento histórico é capaz de suportar atividades com som elevado, vibração e grande circulação de público? A dúvida ganha força diante do atual estado de conservação do espaço.
Segundo a Coluna Magnavita, o secretário municipal de cultura de Petrópolis, Adenilson Honorato, teria apadrinhado a realização de um evento de Carnaval no Palácio de Cristal, um dos principais cartões-postais de Petrópolis e bem de reconhecido valor histórico e arquitetônico.
Um patrimônio delicado
O Palácio de Cristal é uma construção metálica pré-montada, encomendada pelo Conde d’Eu e fabricada no século XIX nas oficinas da Société Anonyme de Saint-Sauveur, na cidade de Arras, na França. Inspirado em estruturas semelhantes existentes em Londres e no Porto, o espaço foi concebido originalmente para abrigar plantas e hortaliças da Princesa Isabel.
A edificação é composta majoritariamente por ferro fundido e vidro, materiais que exigem cuidados constantes de preservação e não foram feitos para receber vibrações provocadas por equipamentos de som de grande potência e pela movimentação intensa de pessoas. Essas ações podem causar danos progressivos a estruturas antigas, especialmente quando não há manutenção preventiva adequada.
O que a reportagem encontrou
A equipe de reportagem do jornal Correio Petropolitano esteve no Palácio de Cristal nesta quarta-feira (28) e constatou problemas visíveis de conservação.
Entre eles estão vidros quebrados e rachados, fiação elétrica exposta, gramado em más condições, além de buracos, desgaste e manchas no piso de fulget. Também foram observados sinais gerais de abandono e ausência de manutenção contínua.
O cenário reforça o questionamento sobre a capacidade do espaço de receber eventos de maior porte sem riscos adicionais ao patrimônio histórico e à segurança do público.
Histórico recente de eventos
De acordo com a Coluna Magnavita e conforme o portal da transparência da Prefeitura de Petrópolis, a empresa apontada como responsável pela produção do evento carnavalesco já atuou em outras grandes iniciativas culturais promovidas pelo poder público municipal.
A mesma empresa foi contratada para a captação de recursos e produção da programação cultural, decoração e estrutura do Natal Imperial 2025, realizado entre 28 de novembro de 2025 e 4 de janeiro de 2026, além do Natal Imperial 2026, previsto para ocorrer de 27 de novembro de 2026 a 3 de janeiro de 2027, em Petrópolis.
Além disso, também foi responsável pela execução da programação cultural da 30ª Bauernfest, realizada no Palácio de Cristal e em seu entorno entre os dias 14 e 30 de junho de 2019, com exceção do dia 20 de junho.
Um alerta histórico
O Palácio de Cristal já passou por intervenções consideradas inadequadas ao longo de sua história. Em 1938, por exemplo, a estrutura chegou a ser coberta por folhas-de-flandres e tijolos para abrigar o então Museu Histórico de Petrópolis, antes da criação do atual Museu Imperial.
Diante da possibilidade de novos eventos de grande porte, a discussão volta ao centro do debate público: como promover atividades culturais sem colocar em risco um dos patrimônios mais simbólicos de Petrópolis?
Questionamentos
Diante das informações sobre a possível realização de um evento carnavalesco no Palácio de Cristal, o Correio Petropolitano encaminhou questionamentos ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e à Prefeitura de Petrópolis, por meio da Secretaria Municipal de Cultura.
Ao IPHAN, o jornal questionou se o órgão foi consultado sobre a realização do evento, se acompanha atualmente a situação do Palácio de Cristal, quando ocorreu a última vistoria técnica e qual é o seu posicionamento sobre a possibilidade de eventos desse porte no monumento histórico.
À Prefeitura, foi solicitado esclarecimento sobre a confirmação do evento, a existência de autorização formal para o uso do espaço, a emissão de parecer técnico prévio sobre riscos à estrutura, a consulta aos órgãos de preservação e o custo estimado da iniciativa, considerando o atual estado de calamidade financeira do município.
A Secretaria Municipal de Cultura também foi questionada sobre o estado de conservação do Palácio de Cristal e se avalia que o evento pode ser realizado nas condições atualmente observadas. Imagens do local foram anexadas ao pedido.
Em resposta ao Correio Petropolitano, o Iphan informou que está apurando o caso. Até o fechamento desta edição, não houve posicionamento oficial da Prefeitura de Petrópolis.
O Correio também buscou esclarecimentos com empresa contratada, mas foi possível realizar contato.