As experiências da vida são um maquinário para a arte. Por meio delas é possível criar novos universos, realidades, aprimorar as emoções e a sensibilidade perante o que foi vivenciado. Neste lugar, a escritora, diretora, atriz e jornalista Angélica Paes transcende a ideia por meio da obra “Mentes Vazia é Oficina da Sua Própria Negligência”, que ganhou destaque pelo texto, sendo apreciado tanto na forma escrita quanto no produto audiovisual que se tornou. Ambos os projetos são destaques: o texto será premiado pela Academia de Letras de Garanhuns, em Pernambuco, e o curta será passado no Festival de Curtas de Portugal, em julho deste ano.
A obra literária, que também é um minicurta, filme de até dois minutos, foi baseada na história de Angélica, entrelaçada à vivência de outras pessoas do convívio da artista. Uma mulher negra, que começou a escrever poesias quando criança, aos nove anos de idade, lia para os colegas de classe sempre que tinha uma nova. Porém, por possuir o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e distúrbio de aprendizagem conhecido como dislexia, escrevia as coisas ao contrário e não conseguia focar.
“Não foi fácil, porque, assim, eu fui fazendo vivências. Baseadas em ciladas em que eu caí, em alguns lugares, coisas que aconteceram comigo e com outras pessoas. E assim fui encaixando, palavra por palavra”, mencionou Angélica.
Produção
O filme é produzido totalmente por meio de inteligência artificial, ou seja, os movimentos. O ambiente se passa em uma sala, onde há uma figura central e as outras pessoas se aproximam buscando algo dela. Juntando os dois universos, poesia e audiovisual, foi quando Angélica percebeu que é possível passar a mensagem que atravessa o outro por meio de diversos canais. “Se não fosse a arte, eu não sei o que seria. Ela me molda e posso extravasar, é a minha terapia. E saber que com ela sou capaz de fazer as pessoas refletirem na própria vida e no modo como lidam com as coisas me faz feliz”, expressou.
A minicurta traz uma inovação, que já está em alta: o uso de inteligência artificial para a produção. Para cumprir o fim, a artista buscou ajuda e foi construindo o piloto. “Fiz todo um processo, e, quando passou, percebi que integrar tecnologia e arte é um novo caminho que permite que um se alinhe com o outro sem anular ambos”, comentou.
O Prêmio da Academia de Letras de Garanhuns é mais um dos que a escritora coleciona pela escrita. Em 2019, por meio da obra “A Menina Solitária”, ganhou o Prêmio Talento Helvético-Brasileiro no Salão do Livro de Genebra, na Suíça. Outro destaque está no livro “As Periféricas”, que foi parar na Academia de Artes Independente de Boston, nos Estados Unidos, onde Angélica ganhou prêmio pela obra e tomou posse na academia. E este ano, o livro vai ser premiado em Angola, em setembro.
Além disso, a escritora também tomou posse na Academia de Letras de Garanhuns, em Pernambuco, no dia 5 de dezembro de 2023. E recebeu uma nomeação na Academia de Letras de Goiás, em novembro de 2024.
Livro de destaque
O livro “As Periféricas – A transformação na periferia pelo poder da literatura” é o que deu a Angélica maiores conquistas. Nele, a autora direciona a linguagem para um lugar que explora a diversidade e os sonhos, desenvolvendo uma temática voltada ao rompimento de barreiras.
Periféricas é uma história que se passa no Morro da comunidade Santa Marta e nos morros de todas as comunidades do Rio de Janeiro e Petrópolis. Os assuntos abordados na obra reluzem um espelho social, tocando em temas pertinentes como o preconceito racial e social, violência contra a mulher, o cotidiano da comunidade, tráfico de drogas, a luta contra o câncer e a relação entre o rico e o pobre, realçando a importância da literatura na periferia, pois, por meio dela, vidas se transformam.
Nesse cenário, a trama gira em torno de três jovens sonhadoras: Lisandra (Lisan), Melissa (Mel) e Bianca (Bia), que, juntas, formam “As Periféricas”, uma banda que nasceu na ONG Atitude Social, localizada no Morro Santa Marta. É lá onde acontecem diversos trabalhos sociais que atendem crianças e adolescentes carentes da comunidade. Segundo a literata, em um mundo cheio de preconceitos, a obra chega para quebrar paradigmas e enfrentar diversos obstáculos para a realização de seus sonhos.