Cabelos carregam identidade. O simples entrelaçar dos fios, separados em três mechas, que se transformam em tranças, é a materialidade de uma tecnologia ancestral potente. Na África antiga, os penteados eram um índice de status social, razão familiar e o poder que um indivíduo obtinha socialmente, até emocionalmente. Parte dessa cultura foi sendo suprimida pelos colonizadores que raspavam as cabeças dos escravizados; tal síntese pode ser encontrada no livro “Ser Escravo no Brasil”.
Apesar da tentativa de apagamento, os cuidados com os cabelos afros e os significados dos penteados foram resguardados e passados de geração a geração como forma de tecnologia ancestral, sendo multiplicados e preservados por guardiãs como a trancista petropolitana Sulamita Costa. No Aya Ateliê, espaço criado por ela para exercer o trabalho, realiza o fazer com esse propósito, transcendendo a estética.
Preservação do fazer
Para Sulamita, que é cria do Madame Machado, em Itaipava, trançar é a definição de compromisso e renascimento. “Me sinto honrada e escolhida para ser uma das guardiãs dessa tecnologia ancestral. Tenho esse compromisso de honrar e de fazer com que perdure da maneira mais sincera e mais verdadeira com o que de fato é o trançar. Na sua origem mesmo”, contou.
Além de honra, as tranças representam o renascimento e transformação. Esse recorte é ainda mais aflorado quando entrelaçado ao fato de os cabelos afros, que englobam crespos e cacheados, passarem por processos que tentam diminuir a potência dos mesmos, por isso a arte possui uma grande importância no processo de cura e identidade da população negra.
“Acho que a gente renasce várias vezes, e trançar e ser trançado, todas as vezes, para mim é um processo de renascimento. É nítida a transformação e a energia mudando. Não automaticamente, mas quando de fato você mergulha nesse processo, você meio que transcende mesmo. É uma parada absurda. Então, é um processo de cura”, exclamou.
Como trançar é sinônimo de resiliência, exercer o trabalho demanda não só o simples fato estético dos penteados, deve carregar também a essência ancestral, que perpassou por diversas eras. “Qualquer pessoa pode aprender a trançar, mas ser uma trançadeira, ser uma trancista e carregar isso com você não é para todos. Então, eu me sinto muito honrada, porque entendo realmente como ter sido escolhida, tem um porquê. Nada é o acaso. Sou muito feliz e grata aos ancestrais por me permitirem fazer o que faço”, disse Sulamita.
Tradição milenar e início
Memória é a capacidade de resguardar acontecimentos, sentimentos e lembranças, que se tornam no futuro um norte para aqueles que as cultivam. Muitas descobertas e inspirações aparecem para um indivíduo ainda na infância. Para a artesã, não foi diferente, tendo contato direto com múltiplas formas de penteados ainda criança, feitos pela mãe. A primeira fonte de estímulo para ela se conectar com o universo. “Comecei a trançar ainda quando criança, muito porque a minha mãe fazia meu cabelo. Naquele processo tradicional de sentar entre as pernas dela e ela fazer o penteado da semana para poder ir para a escola”, relembrou.
O retrato da matriarca trançando os cabelos é vivido para a artista, que despertou para o fazer ainda criança. “Me lembro muito de as professoras sempre elogiarem, porque toda semana eu estava com o penteado muito elaborado para a escola e elas adoravam. E, nesse processo da minha mãe trançar meu cabelo, comecei a despertar o interesse. Comecei a trançar nas minhas bonecas. E, conforme fui crescendo, comecei a trançar as minhas primas e amigas”, contou.
Em meio aos acontecimentos e oportunidades de aperfeiçoamento, Sulamita decidiu ir mais fundo quando começou o processo de transição capilar. Em razão daquele mesmo tópico já mencionado, a relação do cabelo afro com o meio social, lido muitas vezes como ruim ou mal cuidado, pois encontrou nas tranças uma maneira de conseguir passar pela transição, sabendo lidar com as duas texturas do cabelo e se sentir confortável com a própria imagem.
“Fui tomando gosto mesmo, querendo me aperfeiçoar. Isso tudo de maneira autodidata, treinando, fazendo, refazendo, errando. E aí as pessoas começaram a pedir. O interesse foi aumentando. E comecei a fazer nas minhas folgas, no feriado do meu trabalho CLT. E, quando começou a pandemia, comecei a trançar novamente. Só que ganhou uma proporção muito grande”, elucidou.
Após os acontecimentos e o aumento na procura, nasceu o Aya Ateliê durante a pandemia. “E aí que começou a minha trajetória como trancista profissional de fato. Esse momento foi um divisor na minha vida, quando voltei a trançar”.
Aya é resiliência
O nome do espaço possui um significado que se conecta diretamente com a ancestralidade. Aya é um Adinkra, que é um conjunto de símbolos ideográficos do povo Akan, que hoje corresponde aos povos de Gana e Costa do Marfim. “São vários adinkras. Cada um deles é representado por um símbolo, que carrega um provérbio, um ensinamento. Escolhi o Aya pelo que ele representa em ambos os sentidos, tanto no provérbio quanto na minha vida”, falou.
Segundo a artesã, o Adinkra Aya representa força, independência, coragem e resiliência. Ele é representado pela “samambaia”. “Ela é uma das plantas mais antigas do mundo e mais resistente também, que sobrevive em diversos ambientes, do mais árido ao mais quente. Então, nos ambientes mais diversos, essa planta consegue viver, existir e sobreviver”, explicou.
Todo simbolismo ao redor do Adinkra carrega a identidade de Sulamita. “Pessoas que passaram por diversas dificuldades, desafios e, ainda assim, conseguiram florescer. Queria trazer um pouco de mim para o que faço, para o nome também, para a minha marca e para tudo que a trança representa, não só para mim, mas para o nosso povo e para a sociedade”, declarou.
Ressignificar a história
O racismo afeta a população negra em diversas camadas, tentando desqualificar e apagar as contribuições e as tecnologias ancestrais. Nas tranças, o efeito dele não é diferente, pois vem mascarado no esvaziamento do que é, do significado da história e do porquê do trançar. “Isso acaba levando ao empobrecimento da nossa história, da nossa cultura, que está também atrelado à desvalorização de tudo o que é da cultura preta, do que pessoas pretas produzem, criam e fazem. Levando à não valorização de trancistas”, pontuou.
O recorte afeta a questão monetária de quem exerce o trabalho, pois, conforme o relato da trancista, as pessoas têm uma grande resistência em pagar o que é justo. “Cada profissional vai ter o valor justo, o que ele acha que merece receber pelo trabalho. Sinto que há essa resistência por achar que é algo simples, que não merece o valor que merece. Às vezes, ficamos aí seis, oito, dez, doze horas fazendo uma trança e, ainda assim, as pessoas não reconhecem esse trabalho, querem que seja rápido, como se fosse um fast food, e não entendem a complexidade”, contou.
O descrito é uma dificuldade para a categoria dentro do mercado de trabalho. A trancista explicou que lida com esses assuntos trazendo-os à tona nos atendimentos, por tratar o assunto como urgente, não só a questão financeira, mas o porquê do trançar ser tão importante para a cultura preta. “Então, é toda uma estrutura para ser rompida. Mas estamos trabalhando para, aos poucos, ir mudando essa realidade, que não é a partir só das tranças. Engloba todo um contexto social, racial a ser modificado”, enfatizou.
Referência
O Aya Ateliê já é lido por muitos como referência, pela forma do fazer e pelos ideais transmitidos. Sulamita Costa leva consigo um princípio: ‘entregar o que há de melhor ao povo preto’. “Clientes e muitos trancistas me veem como referência, não só no meu trabalho, mas pelo meu posicionamento como trancista, por ter esse comprometimento com a ancestralidade, com a história e, enfim, tudo que isso carrega. E, depois de um certo tempo, eu comecei a me apropriar disso e legitimar, porque foi e é fruto do meu esforço, do meu trabalho, do meu compromisso, da minha entrega. Precisei, e acho que todos nós, principalmente pessoas pretas, precisamos nos apropriar desse lugar de ser uma pessoa que está construindo coisas, que está influenciando e se tornando uma referência dentro da sua comunidade, dentro de casa”, expressou.
Esse pensamento vem do professor pioneiro na criação do pan-africanismo, John Henrik Clarke, que segue o princípio de fortalecer a comunidade de forma coletiva, dando o melhor de si. “Então, é algo que eu venho trabalhando. Venho caminhando aos poucos para estar sempre fazendo, construindo coisas em prol dessa entrega para a comunidade, de retribuir tudo que sei, tudo que eu tenho de bom que está em mim, que aprendi, que eu devo aos meus ancestrais, à minha família, ao lugar onde cresci. Acho que tudo isso contribui para a gente ser quem a gente é e retornar isso para minha comunidade”, expressou Sulamita.
O ato de trançar acompanha esse pensamento e reforça os laços ancestrais ainda presentes nos dias atuais.