A corrida às urnas começou. E em Petrópolis, ela se apresenta com um cenário inédito: um número recorde de candidaturas, fenômeno que, à primeira vista, demonstra vitalidade democrática — mas que também traz uma questão fundamental para cada eleitor: a pulverização dos votos.
Quando as opções se multiplicam demais, o risco é real de que a cidade, mesmo com milhares de eleitores, fique sem representantes fortes na ALERJ e na Câmara dos Deputados, em Brasília. E isso não é apenas uma preocupação política — é uma preocupação de sobrevivência institucional.
Os últimos anos não foram apenas mais um período na história de Petrópolis. Foram anos de provação extrema. O petropolitano viveu a pandemia global, que parou o mundo e desestruturou a economia; enfrentou a pior tragédia natural da história da cidade, com enchentes que tiraram centenas de vidas, destruíram lares e deixaram marcas que ainda cicatrizam; e convive, até hoje, com um cenário de calamidade financeira, dívidas acumuladas que comprometem o presente e o futuro do município. Não é possível olhar para este momento eleitoral sem carregar todo esse peso.
O contexto não é neutro — ele é decisivo.
Diante disso, surge uma pergunta que precisa ser feita com sinceridade: o que deve pesar na hora de decidir o voto? É natural que o eleitor se sinta atraído por quem nasceu e viveu entre nós. O vínculo com a cidade é importante, sim.
Mas será que o fato de um candidato ser de Petrópolis garante, por si só, que ele merece o voto? Não podemos ignorar que muitos que ocuparam cadeiras na Câmara Municipal ou no Executivo, mesmo sendo daqui, deixaram manchas em suas trajetórias — decisões que custaram caro ao município, omissões que aprofundaram crises, e gestões que resultaram justamente nas dificuldades que hoje enfrentamos.
Por outro lado, há também aqueles que, mesmo não nascidos em Petrópolis, construíram uma história de trabalho constante pela cidade, defenderam nossos interesses em instâncias estaduais e federais e provaram que o amor por um lugar não está apenas no nascimento, mas na dedicação e nos resultados. O eleitor precisa, portanto, ir além do rótulo. Precisa perguntar: o que esse candidato fez? Como votou? Quais projetos defendeu? Quais compromissos tem com a recuperação da cidade?
Votar não é apenas escolher um nome. É escolher quem vai defender os recursos que a cidade precisa para sair da calamidade. É escolher quem vai lutar por investimentos, por obras, por apoio do Estado e da União. É escolher quem vai honrar a memória de quem perdeu tudo nas enchentes e trabalhar para que isso não se repita. Em tempos de crise, o voto não pode ser apenas emocional — precisa ser criterioso, consciente e responsável.
A corrida está aberta. Mas o maior prêmio não é o cargo — é o futuro de Petrópolis. E a decisão mais importante não será tomada nas urnas pelos candidatos. Será tomada por cada petropolitano, ao perguntar não apenas quem é de onde, mas quem realmente é digno de nossa confiança. Porque o que define um representante não é a cidade onde nasceu — é a cidade que ele ajuda a construir.
Nei Carvalho é apresentador da TV Correio da Manhã e Secretário de Turismo de Petrópolis.