O racismo consiste no preconceito e na discriminação com base em percepções sociais baseadas em diferenças biológicas entre pessoas e povos. Na sociedade brasileira as pessoas negras convivem com essa realidade todos os dias e os que mais saem prejudicados nessa situação são as crianças e os jovens que crescem numa estrutura que os invalidam e os tornam invisíveis, tentando apagar todos seus traços e características, impactando diretamente na forma que eles se enxergam e agem dentro do corpo social.
“O racismo tira a possibilidade de crianças e jovens negros de sonhar.
É algo que infelizmente caminha com pessoas negras desde o seu nascimento e no desenvolvimento infanto juvenil. A construção da autoestima de crianças negras anda em conjunto com a possibilidade de conhecer as suas raízes. Desde usar o cabelo Black até se reconhecer negro através do aprendizado e não através de casos cada vez mais comuns de jovens sofrendo ofensas racistas nas ruas e nas escolas.”, fala a psicóloga petropolitana, Keila Braga.
Em Petrópolis a população negra é frequentemente vítima dessa violência. Recentemente, a jovem de 21 anos, Joice de Souza, foi vítima de racismo em seu ambiente de trabalho. A jovem relata que foi atingida por cascas de banana e recebeu diversas ofensas racistas de uma mulher enquanto exercia sua função de cobradora. A agressora foi levada para a 105ª Delegacia de Polícia de Petrópolis, no Retiro, onde foi autuada em flagrante pelo crime. Durante a agressão ela ouviu coisas como “sua preta do cabelo duro”. Esse foi o segundo episódio de racismo que Joice sofreu, no primeiro ela foi chamada de macaca.
Nas escolas da cidade a prática é muito mais comum do que deveria, já que o ambiente escolar deveria ser um local de respeito. A equipe do Correio entrevistou 5 crianças e 5 adolescentes, perguntando como se sentiam no ambiente escolar, todos eles responderam que se sentem inseguros e ficam atentos ao redor a todo o momento. “Eu sinto que não posso me dar o luxo de fazer as mesmas coisas que outros colegas que não são da minha cor fazem, eu sempre acho estranho quando a professora vai falar de escravidão ou minoria ela olha diretamente para mim esperando que expresse alguma reação, o que é engraçado, pois a história que ela conta é bem distorcida, principalmente a da Princesa Isabel, onde a professora falou para mim que eu deveria ficar muito feliz de viver em Petrópolis, pois a Princesa saiu daqui, assinou a Lei Áurea e voltou para cá, trazendo glória para o Brasil e para a cidade. Nessa hora eu respirei fundo é falei: nossa que legal, forçadamente, claro.”, relata a estudante de 14 anos.
Em outro depoimento uma criança revelou que se sente feia. Na hora da entrevista ela professou que queria ter cabelos lisos e uma tonalidade mais clarinha, comparando sua pele com a cor de fezes e a tonalidade clarinha com a nuvem.
A psicóloga Keila Braga ressalta o quão cruel o racismo é no crescimento, “O racismo impacta diretamente o psicológico de crianças e adolescentes. Eles começam a viver em um estado de alerta, com medo da exposição a violência. Ele tenta tirar o lado humano de jovens negros, colocá-los em estereótipos e diminuir a história de cada um deles. Com a saúde mental abalada, esses jovens estão mais propensos a desenvolver algum transtorno de sofrimento mental como: ansiedade, depressão, crises de pânico e traumas profundos. Afetando diretamente o comportamento, a maneira de ver o mundo e como ele se insere nesse mundo. A pessoa preta que já começa a vida sofrendo com o racismo não consegue acreditar que tem talentos, habilidades e capacidade de conquistar um futuro digno. Podemos citar a evasão escolar que é maior entre estudantes negros segundo o observatório de educação e o IBGE”, disse.
A ‘Cidade Imperial’ sofre com o apagamento histórico que esconde todas as marcas e contribuição do povo preto. A cidade possui monumentos, ruas e quilombos que foram erguidos por escravos, mas historicamente embranquecidos negligenciando sua origem. Por isso é importante resgatar as memórias e mostrar a potência artística, intelectual e histórica do povo Negro em solo petropolitano, sendo necessário repensar espaços dentro de Petrópolis resguardando feitos desse povo, para que sirvam de inspirações para o grupo de crianças e jovens.
“Para amenizar os impactos na vida de jovens negros precisamos primeiro sair da teoria e ir para a prática. Falar abertamente e verdadeiramente sobre racismo e chamar para a conversa os pais, as escolas e a sociedade. Mostrar as consequências e deixar com que esses jovens possam se recuperar de tantas violências ao longo de sua história. Acolher esses jovens através de atendimento psicológico, conversar sobre saúde mental e mostrar que é possível sim vencer cada um os traumas produzidos pelo racismo, que além de ser uma prática infelizmente enraizada entre as gerações, é crime inafiançável.”, declara Keila Braga.
Por *Leandra Lima/Foto: Marcelo Camargo-Agência Brasil