Uma das personalidades mais conhecidas de Petrópolis, o bispo Dom Gregório Paixão, será transferido para a Diocese de Fortaleza, no Ceará. O bispo, que está a onze anos a frente da Diocese Petrópolis, vai celebrar uma missa de despedida no dia 2 dezembro, o que pretende lotar a catedral São Pedro de Alcântara. Dom Gregório concedeu uma entrevista ao Jornal Correio da Manhã e você confere ela a seguir.
Richard Stoltzenburg: Quando foi a sua chegada em Petrópolis, e como ela aconteceu?
Dom Gregório: Eu vivi em um mosteiro de São Bento, da Bahia, durante 23 anos e meio. Mas o Papa Bento XVI resolveu me tirar deste convento para que eu pudesse exercer uma nova função na igreja, sendo bispo auxiliar em Salvador. Ali eu passei seis anos e meio, com o trabalho de evangelização, trabalhos sociais e tudo aquilo que envolve a vida da igreja. Após esse período, o próprio Papa Bento XVI me enviou para Petrópolis. Para mim foi uma grande surpresa vir para a região sudeste. Porque geralmente os bispos nordestinos que conhecem bastante a região do nordeste, que é uma região muito exigente, geralmente ficam por lá. Cheguei aqui em 2012 e já estou a quase 11 anos profundamente feliz. Vim para um trabalho missionário e que envolve uma série de questões. Além de pregar o evangelho de Jesus Cristo, também realiza os trabalhos sociais da igreja. Aqui na diocese encontrei trabalhos maravilhosos realizados já desde a criação (1946).
RS: Nesta trajetória de 11 anos, alguma coisa lhe marcou muito?
DG: Acredito que uma das coisas que mais me marcou durante este período foi exatamente a solidariedade das pessoas, principalmente nos momentos difíceis. No momento de uma catástrofe, de uma tristeza ou no momento que a morte está diante de todos nós, só existe uma possibilidade de nós nos unirmos. Isso não devia ser apenas nestes momentos mais difíceis, nós deveríamos ter esse coração solidário o tempo todo, e isso eu vi muito aqui em Petrópolis e nas outras cidades que compõem a Diocese Petrópolis (Teresópolis, São José do Vale do Rio Preto, Areal, Magé e Guapimirim). Em todas essas cidades tivemos momentos difíceis, mas esse coração solidário, esse desejo de amar ao outro, me encantou profundamente.
RS: Bispo, vamos falar sobre a questão até quando fica em Petrópolis, até para que possamos acompanhar uma última missa, celebrar a presença de um bispo tão querido aqui no município.
DG: Eu fico aqui até o dia 10 de dezembro, mas haverá uma missa de despedida na catedral, no dia 2 de dezembro, às 9h. Para que nós possamos abraçar amigos, as pessoas que a gente acompanhou e todos aqueles que naturalmente não tivemos muito contato, mas são pessoas que fazem parte da nossa vida e da nossa história mesmo estando distantes. No dia 9 de dezembro eu ainda celebro uma missa solene, que é uma ordenação de dois novos padres.
RS: Como foi a adaptação em Petrópolis, justamente por vir de um local muito quente e por vir para uma diferente região do país, ainda mais para o interior?
DG: A adaptação naturalmente não foi automática, porque eu estava acostumado com um clima muito mais quente em Salvador. As noites a temperatura mínima em Salvador vai para 24 graus, aqui cai bastante. Entretanto eu me adaptei fácil. É mais fácil a gente se adaptar ao frio, do que com o calor. E inegavelmente a coisa mais maravilhosa que eu vivi, foi me adaptar a cultura e me adaptar às pessoas que me acolheram com um carinho imenso.
RS: Você acredita que é importante ter essa recepção das pessoas, esse calor humano, para iniciar um bom trabalho?
DG: Não tenha dúvida. Imagine chegar em um ambiente de trabalho onde ninguém lhe dá ‘bom dia’ ou te tratem com carinho. Agora quando as pessoas te acolhem e são carinhosas, você se sente em casa e foi exatamente o que eu recebi aqui desde o início. O grande segredo da vida é tratar bem as pessoas, mesmo aquelas que não lhe tratam bem. Eu vim com o compromisso de amar as pessoas, agora tive inegavelmente a alegria de me sentir amado por elas.
RS: Vai ter a missa de despedida, mas de alguma forma, apesar da experiência, o coração bate mais forte?
DG: Bate mais forte. Eu descobri uma coisa interessante, que sou chorão. Vou nas comunidades, o pessoal faz um agradecimento, eu vou falar já começo a chorar. É um sentimento de ganho, pois estou indo para uma nova missão, mas ao mesmo tempo um sentimento de deixar esses grandes amigos que construí aqui em Petrópolis e nas cidades da Diocese. Eu acho que isso é muito positivo, porque é terrível quando você sai de um local pensando ‘ainda bem que isso vai acontecer’. Estou indo, mas meu coração também está aqui.
RS: Tá certo, agora Bispo, como é que está o coração e sua expectativa para assumir esse novo projeto e missão?
DG: A melhor possível, eu já conheço bastante o Nordeste, venho daquela cultura, a expectativa é buscar ser tão feliz na Arquidiocese de Fortaleza quanto eu fui aqui. Olha com toda a sinceridade Richard, se eu tiver a metade da felicidade lá do que eu tive aqui, já completarei aquilo que eu gostaria, aqui eu fui muito feliz e tenho certeza de que nessa nova jornada eu poderei vivenciar essa felicidade em outra cultura num novo contexto. Mas é exatamente isso, se olharmos o evangelho, vemos que Pedro saiu de Israel e foi para Roma, Paulo para a Grécia, os apóstolos foram para diferentes áreas do mundo para pregar.
Existe um coração que está lá no Ceará de algum modo pedindo a minha presença, o que eu vou encontrar lá é o mesmo que encontrei aqui o coração de Jesus, ele me espera através dos amigos que farei, das pessoas mais necessitadas, dos invisíveis da sociedade, os excluídos e daqueles também que já o conhecem, então com essa turma imensa que movimenta um trabalho que já está sendo realizado desde do século 18 quando Fortaleza foi fundada, sinto-me alegre que não vou começar do zero, já fizeram muita coisa, na verdade quase tudo , irei apenas contribuir com minha presença dizendo, “olhe, estou aqui para amar vocês” é isso já basta porque Deus nos chamou para esse feito, amar todas as pessoas.
RS: Aí que entra a maturidade, né Bispo, para cumprir a missão, porque realmente não é fácil deixar um local, um trabalho ou amizades para começar algo novo. Quem é cristão acredita que há um propósito de vida maior nisso tudo, e acaba se permitindo viver acreditando que todo esse propósito vale a pena?
DG: Vale a pena, costumo dizer ‘vale a pena quando a alma não é pequena’ , eu acho que o mais importante é justamente essa presença, e que cada um de nós possamos respeitar as diferenças, isso é fundamental, temos que dialogar com a sociedade. Faz bem para você quando deseja o bem para o outro. Existem coisas que para mim são muito importantes : recordar sempre o passado, presente e futuro com bom ânimo deixando a tristeza e as mágoas para trás e seguir em frente com boas memórias.
RS: Foi com esse espírito que o senhor caminhou esses 11 anos aqui em Petrópolis?
DG: Sim, eu sempre passo a mensagem de que devemos ser positivos é olhar as possibilidades com um ar de graça, quem tem olhar de porco só ver lama, agora que consegue ver graça nos mínimos detalhes já faz a diferença, por menor que seja a ação que fazemos para transformar o mundo, pensa comigo, se cada um fizer um pouquinho é impossível não movimentar a sociedade. Através do Reino de Deus conseguimos aquecer os corações.
RS: Estamos encaminhado para o final, para fecharmos gostaria de saber qual mensagem o senhor deixa para os petropolitanos?
DG: A mensagem que eu deixo é de esperança, e de alegria, seja qual seja sua situação, vá adiante e não tenha medo. Vou contar uma história em homenagem às mulheres, especialmente por conta do outubro rosa, tem uma senhora que foi ao médico fazer os exames de rotina e descobriu que estava com câncer de mama, o médico falou para ela que se ela tivesse fé e fosse esperançosa ela tinha 90% de chance de ser curada. Foi o que ela fez! Ela começou a quimioterapia terapia e falou que Deus ia curá-la. E assim ela venceu o câncer. O que temos que fazer é ter fé e continuar! Deus é maravilhoso!
Por Gabriel Rattes e Leandra Lima/Foto: arquivo TVC