Descoberta é aquilo que se revela, podendo ser uma situação nova ou velha. A palavra carrega muitos significados, para uns é algo excitante, já que representa novidade. Nesse caso, a maioria da sociedade sabe como é esse sentimento, pois todos já se viram ansiosos para conhecer uma loja, comida ou lugares diferentes do usual. Porém, a mesma sensação
pode ser um fardo para aqueles que estão no processo de desbravar a si mesmos, principalmente no quesito sexual, pois a sociedade mantém um padrão que obriga as pessoas a se encaixarem, e aqueles que saem dessas caixas são hostilizados e vistos como “anormais”. Escancarando essa realidade, o espetáculo teatral “Multidão Fantasma”, que acontece nesta sexta-feira (8), às 19h30, como parte da 13° Mostra de Teatro de Petrópolis, aborda a descoberta da sexualidade de dois corpos em meio à sociedade machista e sexista.
“Quando você se apaixona e sente coisas diferentes por uma pessoa do mesmo sexo e gênero que você, as pessoas tendem a não gostar disso, né? Mas isso não é errado, o amor é livre”, disse Renan Miranda, ator e diretor da peça, que acompanha o desenrolar da história de amor entre dois vizinhos. Nela é traçada a trajetória dos corpos, as dores sofridas e causadas.
A performance questiona até que ponto a cultura das gerações passadas pode criar uma sociedade cruel e violenta com quem é diferente, provocando no público uma reflexão, apontando que as brincadeirinhas e piadinhas como “viadinho”, “mariquinha” e outras expressões usadas para ofender são um tipo de agressão contra a comunidade LGBTQIANP+.
O escritor, diretor e também ator do espetáculo, Gabriel Candido, revelou que o processo de montagem do texto partiu de um lugar pessoal, unindo a jornada de vida dele e da dupla, o ator Renan. “A construção partiu de um olhar para o passado e revisitar locais violentos, locais de violência que eu presenciei quando eu era mais novo, ao longo da minha vida. Só que, na época, eu não sabia. Nesse sentido, só fui perceber a brutalidade presente nesses espaços depois que me entendi como bissexual. E aí está essa temática, esse conceito, três passos, todo o texto do espetáculo”, contou.
Certo ou errado
A montagem também levanta um debate sobre o que é certo e errado no meio social, colocando em cheque a supressão dos sentimentos enquanto se mantém o padrão normativo.
“Falamos sobre a bissexualidade, essa coisa de se encontrar enquanto uma pessoa bissexual ou LGBTQIAPN+ no geral. O que passamos desde jovem é esse sentimento que é estranho no momento. Tem esse borbulhar no estômago, em conjunto com as dualidades de entender: será que eu gosto? Ou o que é que eu estou sentindo? Claro que todo mundo sente isso, quando se apaixona. Só que, no caso, se você gosta de uma pessoa do mesmo gênero, é diferente, não tem um apoio e ainda é condenado. A realidade não é assim para todos, mas a maioria sofre com o preconceito”, expressou Renan.
Gabriel ecoa as palavras do colega de cena, trazendo à tona os processos de exclusão da comunidade. “É tudo baseado da maneira que é visto. Se algo não é normalizado, é excluído e taxado. E, geralmente, quando é pra uma minoria, pra alguém que já sofre violência cotidianamente, isso acaba sendo uma forma de excluir. Então, ao longo da minha vida, passei por vários ambientes em que pessoas LGBTQIAPN+ eram excluídas, sem pudor. E, na peça, mostramos um pouco desse terror inventado ao redor desses corpos”, contou.
Olhar para dentro
A performance vem da autoficção que conecta a vida dos atores com a ficção. “O espetáculo é muito do que a gente é. A parte visual, foram coisas de um sonho. Eu sou muito ligada aos meus sonhos, que são bem loucos. Sonhei com partes do espetáculo, com as cores brancas, com a saia branca que usava, a calça branca que ele usava”, expressou Renan Miranda.
Nesse sentido, o Teatro é uma arte generosa, onde os criadores transformam as dores em poesia. Tudo é feito coletivamente e tem o poder de fazer com que o espectador reflita e sinta as nuances, como empatia, indignação, senso de justiça, que leve à transformação social.
Produção
O Multidão Fantasma é uma construção coletiva da produtora Bonobo Tangerino, escrita por Gabriel Candido, que atua e co-dirige o espetáculo. A direção de arte e direção compartilhada do produto é de Renan Miranda, que também atua. A operação de som é de Matheus Teixeira e a direção de movimento e luz é de Marcos Retondar.
A peça tem uma página no instagram onde é exposto alguns processos, sendo ela:@multidaofantasma, os artistas também podem ser achados na mesma plataforma: @fala.renan e @gabeucandido.