Há cerca de um ano, a Prefeitura de Petrópolis publicou o decreto de calamidade financeira. Naquele momento, a Câmara Municipal discutia o reajuste salarial dos servidores da educação, que acabaram recebendo 8%, sendo 3% em 2025 e outros 5% a partir de janeiro deste ano. A sessão que aprovou o índice foi marcada por debates acalorados e críticas ao governo municipal, principalmente porque, meses antes, os vereadores também haviam aprovado um reajuste de 70% nos salários do prefeito, do vice-prefeito e dos secretários municipais, mesmo diante do cenário financeiro já considerado crítico. A decisão acabou se tornando um verdadeiro tiro no pé para a atual gestão e ajuda a explicar o cenário político vivido hoje.
Passado um ano, as medidas adotadas pelo município ainda não produziram os resultados esperados. No último dia 30 de junho, a Prefeitura publicou o Decreto nº 458, prorrogando por mais 180 dias o estado de calamidade financeira. O que chamou a atenção, porém, não foi a prorrogação em si, mas a ausência de uma medida que constava no Decreto nº 145, de 16 de julho de 2025.
Na ocasião, o decreto suspendia os efeitos do reajuste salarial aprovado pela Câmara Municipal, em dezembro de 2024, para o prefeito, o vice-prefeito e os secretários municipais. O tema ganhou destaque na imprensa local e provocou forte desgaste político para a administração.
No decreto publicado no fim do mês passado, entretanto, essa suspensão deixou de constar. Na prática, isso significa que, caso o município consiga reverter na Justiça a decisão que impede a aplicação do reajuste, o prefeito, o vice-prefeito e os secretários poderão receber o aumento de 70%, mesmo com a cidade ainda sob decreto de calamidade financeira.
Embora essa possibilidade não seja ilegal, o contexto em que ela ressurge gera questionamentos políticos e administrativos. A reação da oposição foi imediata, assim como a de parte da população. Mais uma vez, a gestão oferece aos adversários um tema de forte apelo político, trazendo de volta uma discussão que, aos poucos, vinha perdendo espaço diante de outros problemas enfrentados pelo município.
A tendência é que o assunto seja explorado no período eleitoral. Isso porque os principais nomes da oposição já anunciaram pré-candidaturas à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e à Câmara dos Deputados. O tema surge como um argumento de campanha às vésperas do início oficial do período eleitoral, previsto para 5 de agosto, data que marca o início do prazo de 90 dias antes das eleições, marcadas para 4 de outubro e, caso haja segundo turno, para 25 de outubro.