No Dia Mundial sem Carro, celebrado em 22 de setembro, um dos principais desafios para estimular a população a deixar o automóvel de lado pode estar menos relacionado às campanhas de conscientização e mais ao próprio desenho das cidades. Para o arquiteto e urbanista Marcelo Monteiro, especialista em planejamento urbano e mobilidade e docente da Estácio, não basta pedir que as pessoas caminhem ou utilizem outros meios de transporte se o espaço público não oferece condições adequadas para isso.
“Ninguém troca o conforto do ar-condicionado de um carro por uma caminhada sob um sol escaldante, em uma calçada árida cercada por asfalto quente. Se queremos que as pessoas usem as próprias pernas, precisamos oferecer uma rota agradável para caminhar”, afirma.
A proximidade entre o Dia Mundial sem Carro e o Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, ajuda a evidenciar essa relação. Segundo o especialista, a arborização urbana não deve ser encarada apenas como elemento paisagístico, mas como parte da infraestrutura necessária para uma cidade mais caminhável.
“A árvore é um equipamento público de conforto. Ela contribui diretamente para a criação de microclimas mais favoráveis ao nível do chão, oferecendo sombra, reduzindo a incidência de radiação solar e ajudando a amenizar o calor nas áreas urbanas”, explica Monteiro.
As árvores também contribuem para a redução da temperatura por meio da evapotranspiração, processo natural pelo qual as plantas liberam vapor de água. Em áreas urbanas, onde o concreto e o asfalto absorvem e acumulam calor ao longo do dia, a presença de copas arbóreas pode ajudar a reduzir a sensação térmica nos espaços destinados à circulação de pedestres.
Além do conforto térmico, a arborização pode colaborar para uma experiência mais agradável de deslocamento. Árvores de porte adequado ajudam a criar uma separação física e visual entre pedestres e veículos, além de contribuírem para a redução da exposição ao ruído e para a construção de uma paisagem urbana mais acolhedora.
“Uma rua sombreada muda a relação das pessoas com o espaço. O pedestre tende a caminhar com mais conforto, desacelerar, observar o comércio, permanecer e ocupar aquele lugar. A arborização ajuda a devolver uma escala mais humana à cidade”, destaca o arquiteto.
Quando a rua também precisa absorver a chuva
A discussão sobre mobilidade ativa, que inclui principalmente os deslocamentos a pé e de bicicleta, também passa pela forma como as cidades lidam com a água das chuvas. Para Monteiro, repensar as ruas significa integrar mobilidade, arborização e drenagem urbana.
Nesse contexto, ganham espaço as chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SbN), estratégias de engenharia e urbanismo que utilizam processos naturais para enfrentar problemas urbanos. Entre elas estão os jardins de chuva e os canteiros de infiltração, estruturas vegetadas que ajudam a absorver e filtrar a água antes que ela alcance a rede de drenagem.
“A lógica tradicional é tentar retirar a água da cidade o mais rapidamente possível por meio de tubulações e canais. Quando temos eventos de chuva intensa, essa infraestrutura pode ficar sobrecarregada. Ao permitir que parte da água seja absorvida pelo próprio solo, conseguimos trabalhar com a natureza, e não contra ela”, explica.
Segundo o especialista, esse tipo de solução pode ser incorporado ao redesenho das próprias calçadas e vias, inclusive em espaços hoje ocupados por áreas excessivas de asfalto ou vagas residuais. Além de contribuir para a drenagem, canteiros vegetados podem ampliar a presença de áreas verdes no percurso dos pedestres.
Calçadas acessíveis e ruas para todos
Para que a mobilidade a pé deixe de ser apenas uma recomendação e se torne uma alternativa efetiva de deslocamento, o planejamento urbano também precisa colocar o pedestre no centro das decisões sobre o espaço público.
Uma das referências nesse sentido são as chamadas Ruas Completas, conceito de planejamento que propõe vias capazes de atender com segurança e conforto diferentes usuários: pedestres, ciclistas, usuários do transporte público e motoristas, sem priorizar exclusivamente a velocidade dos automóveis.
“Falar em sustentabilidade urbana exige repensar a ideia de que a rua existe principalmente para o carro. Uma via precisa ter calçadas largas, acessíveis, arborizadas e seguras. Se a pessoa não se sente confortável para caminhar, dificilmente vai deixar o automóvel em casa apenas porque existe uma campanha dizendo que deveria fazer isso”, afirma Monteiro.
Para o arquiteto, a proximidade entre as duas datas do calendário reforça que arborização e mobilidade não são pautas isoladas. Ambas estão relacionadas à qualidade ambiental e à forma como as pessoas vivenciam as cidades.
“O Dia da Árvore e o Dia Mundial sem Carro tratam, em diferentes perspectivas, da qualidade do ar, do conforto dos deslocamentos e da saúde coletiva. Uma cidade não se torna caminhável apenas com discursos de conscientização. A mudança começa também no desenho da rua: plantar a espécie adequada, no lugar adequado da calçada, pode ser um dos primeiros passos para convidar as pessoas a viverem a cidade a pé”, conclui.