O Brasil registrou, em 2026, o primeiro trimestre mais letal para as mulheres dos últimos 11 anos, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Entre janeiro e março, o país contabilizou 399 vítimas de feminicídio.
No estado do Rio de Janeiro, dados do ISP Mulher apontam redução nos registros de feminicídio, que passaram de 32 para 20 casos no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025, representando o menor número para o período desde 2020. Os dados também indicam redução de 23% nos casos de homicídio doloso contra mulheres. Em contrapartida, as tentativas de feminicídio aumentaram 10,2% (88 tentativas em 2025, contra 97 em 2026).
Os dados do primeiro trimestre também mostram que cresceram os registros de constrangimento ilegal (37%) e difamação (25%). Para a secretária de Estado da Mulher, Heloisa Aguiar, isso indica maior conscientização sobre as violências de gênero, ampliação do acesso à informação e fortalecimento da confiança das mulheres na rede de proteção.
“Quando observamos a redução de índices de violência letal ao mesmo tempo em que cresce o registro de violências em fases anteriores do ciclo, isso também aponta para uma maior capacidade de acesso dessas mulheres à rede de proteção antes da escalada da violência”, destaca.
Para a diretora-presidente do ISP, Bárbara Caballero, é necessário abrir o debate sobre a violência contra a mulher e colocar os homens no centro dessa discussão.
“Quando uma mulher sofre qualquer violência, sempre colocamos em cima dela a responsabilidade de denunciar o crime, e pouco falamos sobre os autores dessas agressões. Por que não concentrar o foco das nossas ações no verdadeiro responsável, para que esses agressores não ajam mais dessa maneira? É uma mudança de cultura que precisa acontecer urgentemente na nossa sociedade”, indaga.
Os dados também indicam a importância da atuação integrada da rede de atendimento.
“Mesmo diante do aumento das tentativas de feminicídio, essas mulheres não morreram. Isso também diz sobre uma rede que conseguiu funcionar antes do desfecho fatal, ampliando o acesso à proteção e interrompendo ciclos de violência”, observa Heloisa.
A SEM-RJ também destaca ações voltadas à prevenção e à conscientização social, como a campanha “Não é Não! Respeite a Decisão”, a ampliação da divulgação do aplicativo Rede Mulher e iniciativas de fortalecimento técnico da rede, como o Observatório do Feminicídio, desenvolvido em parceria com a UFRJ para qualificação de profissionais e aprimoramento da análise de dados e dos fluxos de prevenção.
Outro destaque é o programa SerH, realizado em parceria com a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP-RJ) e o Instituto Mapear, que atua com grupos reflexivos para homens autores de violência doméstica e familiar. Em 2025, o programa contribuiu para a redução da reincidência de 17% para 2% entre os homens acompanhados na unidade prisional Patrícia Acioli.
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