“O maestro parecia gentil e divertido. Ao mesmo tempo, havia a fama de que a disciplina era rígida. Logo ficou claro que era mais do que isso. Humilhações, broncas desproporcionais e constrangimentos eram práticas recorrentes”, o relato de uma ex-coralista revela o poder de um homem que constrói um legado na sociedade brasileira fundamentado no patriarcado.
Esse recorte é afirmado pela vítima, que afirma que o escândalo envolvendo o Coral Meninas Cantoras de Petrópolis trouxe à tona uma reflexão de até onde suportar os silêncios em torno do cotidiano feminino, principalmente quando se trata de crianças e adolescentes. Conforme aponta a ex-coralista, as mulheres foram ensinadas a satisfazer o patriarcado, ignorando as suas próprias vontades e desejos. Todo esse sufocamento criado pela estrutura social sustentada pelo machismo gera uma série de problemas.
Quando a sociedade olhava o coral, via a excelência, as vozes angelicais, a magnitude, os sonhos, o grande mestre, a imagem de perfeição e devoção à música, não à toa a fama e o reconhecimento nacional e internacional. O que ninguém sabia é que essas mesmas vozes eram sufocadas pelos abusos que ultrapassaram a barreira do ensinar.
Segundo as vítimas, racismo, abuso psicológico, moral, sexual e até abuso ideológico eram frequentes na sala de ensaio. “O Coral era um equipamento pensado, elaborado, a partir da centralidade do maestro, Marco Aurélio, para abusar e explorar crianças em todos os níveis. O que ele fazia, sentia prazer nisso. Fiquei durante sete anos no coral. E lá dentro, quando você entra, você recebe um nome artístico, você não é mais chamada pelo seu nome. Sempre foi muito ovacionada a ideia de que só as mais resistentes ficam. Mas ficar em que condições, sofrendo todo tipo de abuso, humilhação”, contou outra vítima.
Ela também narrou como ocorriam os abusos. “Então, era muito comum contatos físicos, como botar a mão dentro da nossa boca, se desafinássemos. Ele botava a língua na nossa orelha. Além disso, era extremamente racista. Eu era uma menina negra no coral, o que já era bem difícil”, contou.
Outra menina relembrou um episódio envolvendo falas proferidas pelo maestro a favor de Adolf Hitler.
“Eu já estava nos últimos meses de participação no coral das Meninas Cantoras de Petrópolis quando aconteceu um fato que me marcou profundamente. Num ensaio rotineiro, num dia que parecia comum, após uma determinação do maestro, uma das meninas, que entrava na fase da adolescência, diante do autoritarismo corriqueiro, disparou um “Heil, Hitler!”, acompanhado do gesto que remetia à saudação à liderança da Alemanha Nazista.
Pronto. A expressão enfurecida do regente e a pergunta dirigida àquela menina — “Você acha que Hitler era mau?” — demonstravam que o “tempo” tinha virado. Não posso responder por minhas colegas, mas eu sentia aquela sensação de frio na barriga. Já sabia que o clima ia pesar e isso me fazia mal.
A mocinha confrontada respondeu que sim. Disse que Hitler tinha cometido crimes e teceu alguns comentários que convergiam ao que aprendemos na escola sobre os horrores praticados por Hitler. Visivelmente alterado, Marco Aurélio deu uma série de justificativas para as atrocidades praticadas nos eventos históricos que alimentaram o ódio dirigido aos judeus e culminaram em um dos maiores crimes contra a humanidade.
Dias depois, fomos cantar em um casamento na Igreja do Sion. Era um sábado à tarde, a universidade já havia encerrado as atividades e, para chegarmos ao segundo andar, passamos por um corredor escuro. Boa parte do grupo gritou. Em mais uma explosão, veio uma sentença para todas: deveríamos escrever 500 vezes a frase “Menina mal-educada deve morar na favela”. O retorno ao coral na terça-feira seguinte só seria possível com a tarefa em mãos”, relembrou a ex-coralista.
A mulher relembrou desse fato após assistir ao vídeo divulgado nas mídias petropolitanas, no qual Marco Aurélio respondia às denúncias feitas contra ele afirmando que era “muito pior” do que diziam e que seus grandes mestres eram nazistas.
“Nesse momento fui imediatamente transportada para aqueles acontecimentos vividos ainda nos anos 1980. Aquelas palavras não surgiram para mim como algo completamente desconectado do passado. Pelo contrário: fizeram ressurgir lembranças que carrego há quase quatro décadas”, disse.
As histórias contadas levantam uma ideia antiga que expõe um comentário que meninas crescem ouvindo: ‘Meninas devem ser boazinhas e se comportar bem’.
“Então, era uma questão bem difícil para a gente se manter lá. E a gente se mantinha muito nesse ideal. Era uma seita mesmo que ele criou. Essa ideia é reforçada pela estrutura da sociedade mesmo, que quer as mulheres nesse lugar. Então, ele repercutia isso com muita tranquilidade, né? E isso era até bem visto, porque parecia que ele estava dando bons modos para a gente. Éramos meninas respeitadas, de bons modos. E isso é bizarro”, narrou a ex-coralista.
Nessa estrutura social, uma das vítimas revela que o maestro não teve o mesmo êxito com os meninos.
“Hoje reconheço muitas dessas situações como formas de assédio moral. Na época, porém, eram apresentadas como parte natural da formação artística. E funcionavam, em grande medida, porque meninas eram educadas para obedecer. Anos depois, o regente criou um coral masculino no Colégio de Aplicação. A experiência durou pouco. Os meninos não aceitaram com a mesma naturalidade exigências que nós aprendemos a suportar. Quando uma viagem escolar foi proibida para garantir a presença em ensaios, eles simplesmente ignoraram a determinação. A dinâmica da submissão não produziu o mesmo resultado. O projeto acabou encerrado”, contou.
Acolhimento
Mulheres que hoje têm entre 24 e 60 anos relembram a trajetória e hoje refletem sobre o assunto.
“Então, a gente está tendo acesso a muitas memórias, muitas dessas violências agora. Ele precisa ser conhecido como um abusador. Acho que o mais importante é a nossa força feminina mesmo, a força do coletivo, das ex-integrantes que estão tendo coragem de denunciar e de estar agindo em diversas esferas para poder incriminar essa situação”, expressou.
Questionado sobre os acontecimentos o maestro Marco Aurélio Xavier, não respondeu ao Correio até o fechamento desta edição.