Por Gabriel Rattes
Muito antes da existência de trilhas sinalizadas, equipamentos de segurança modernos ou da popularização dos esportes de montanha, um grupo de moradores de Petrópolis decidiu transformar a relação da cidade com a Serra do Mar. Em 28 de junho de 1931, descendentes de imigrantes alemães, suíços, italianos e austríacos fundaram o Club Excursionista de Petrópolis, a segunda agremiação de montanhismo do Brasil e da América do Sul.
A iniciativa representou um marco para o esporte e para a história da cidade. Em uma época em que explorar montanhas significava desbravar áreas praticamente desconhecidas, os excursionistas abriram caminhos guiados pela técnica, pelo conhecimento e pelo espírito de aventura. Sem trilhas demarcadas ou equipamentos especializados, as expedições dependiam da experiência e da determinação de seus integrantes.
Primeiro presidente
O primeiro presidente da entidade foi Attilio Parin. Ao seu lado, participaram da fundação nomes como Rudolf Haack, Oldemar Corrêa da Silva, Eduardo Corrêa da Silva, Roberto Bauer, Arthur de Sá Earp Filho e Heinrich Kugler. O grupo reunia pessoas de elevada formação intelectual e forte influência da cultura europeia do excursionismo, tradição trazida por suas famílias e reforçada pelo acesso a equipamentos importados, raros no Brasil da época.
Segunda Guerra Mundial
A trajetória do clube, entretanto, foi interrompida em 1939. Com o início da Segunda Guerra Mundial e o endurecimento das políticas do Estado Novo, associações ligadas a comunidades de origem germânica passaram a sofrer restrições, levando ao encerramento das atividades da entidade. Anos depois, em 1945, surgiu uma tentativa de retomada com a criação do Centro Excursionista Petrópolis, que permaneceu em funcionamento até 1949.
O montanhismo petropolitano, porém, não desapareceu. Em 15 de maio de 1958, foi fundado o Centro Excursionista Petropolitano (CEP), instituição que consolidou definitivamente a prática organizada do esporte na cidade. Ao longo das décadas, a entidade tornou-se referência estadual e nacional, sendo reconhecida como de Utilidade Pública Municipal e integrante da estrutura federativa do montanhismo brasileiro.
Hoje, Petrópolis é considerada um dos principais destinos do país para os esportes de montanha. O município reúne centenas de vias de escalada distribuídas por dezenas de setores, além de abrigar a tradicional travessia Petrópolis–Teresópolis, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, considerada um dos trekkings mais emblemáticos do Brasil.
O crescimento da atividade também fortaleceu o reconhecimento das trilhas e do montanhismo como patrimônio cultural e instrumento de conservação ambiental. Mais do que prática esportiva, a atividade passou a integrar iniciativas de educação ambiental, preservação dos recursos naturais e valorização da identidade serrana.
Dia do Montanhismo Petropolitano
Celebrado em 28 de junho, o Dia do Montanhismo Petropolitano homenageia os pioneiros que, há quase um século, iniciaram uma cultura de montanha quando ainda não existiam estruturas voltadas ao esporte. O legado deixado por aqueles excursionistas permanece vivo na atuação de clubes, guias, escaladores, caminhantes e voluntários que continuam promovendo o uso responsável das montanhas da região.
Quase cem anos depois da fundação do primeiro clube, Petrópolis mantém viva uma tradição construída sobre coragem, conhecimento e respeito à natureza. Um patrimônio que une esporte, história, conservação ambiental e o sentimento de pertencimento de gerações que seguem encontrando nas montanhas um dos maiores símbolos da cidade.