Por: Leandra Lima
A acessibilidade é o direito que garante a todo cidadão, portador de deficiência ou não, utilizar espaços, ter autonomia para transitar, usar transportes e a tecnologia de forma plena e segura. Apesar do conceito, ela ainda é uma barreira para muitos, limitando o exercício social na totalidade por terem que enfrentar muros invisíveis aos olhares do corpo social, que ainda insiste em construir poucas medidas de inclusão. Nesse parâmetro, a Associação de Assistência para Pessoas com Deficiência – Instituto Alliance em conjunto com o Movimento Libras nas Ruas promoverá neste sábado, 4 de julho, o evento “Librando em Petrópolis”, que coloca a comunidade surda como protagonista no espaço urbano.
Segundo a fundadora do Instituto Alliance, Vânia Cristina do Nascimento, o movimento é uma iniciativa da Organização da Sociedade Civil (OSC) do Rio de Janeiro que promove o direito à cidade, a acessibilidade e a visibilidade da cultura e da comunidade surda. “O projeto tira a Língua Brasileira de Sinais (Libras) dos espaços restritos e a leva para as ruas, integrando surdos e ouvintes sinalizantes em eventos esportivos, culturais e passeios guiados”, explicou.
Nesse quesito, o direito à cidade se faz um conceito importante quando levantamos a questão da acessibilidade nos espaços públicos, pois ele é o que vai garantir às pessoas com deficiência o direito à liberdade posta para todo cidadão. E é isso que o evento quer focar: na importância da inclusão de todas as formas em diversos espaços do município. “O que nos levou a organizar o Librando foi justamente o desejo de aplicar esse conceito na prática, unindo cultura, turismo local e acessibilidade plena”, disse Vânia.
Esse é o primeiro evento em formato de passeio guiado em solo petropolitano, feito em parceria com o Instituto Alliance. “Queremos que a comunidade surda ocupe o espaço urbano com protagonismo. Por isso, em nossas ações e demandas (como a seleção de expositores para feiras), sempre priorizamos o nativo surdo, seguido pelos sinalizadores fluentes e por quem está aprendendo”, expressou o Instituto Alliance.
O evento
Conforme aponta o Alliance, a concentração do evento será às 10h, na sede do instituto, localizada na Rua Casemiro de Abreu, 58, Centro. A partir do encontro dos participantes, começará um passeio guiado pelo Centro Histórico, a partir das 10h30, unindo surdos e ouvintes em uma imersão cultural, na qual todos vão caminhar, descobrir curiosidades da cidade e conversar em Libras.
Em outro momento, na parte da tarde, o grupo vai ao encontro do grupo ‘Sociedade dos Motociclistas Surdos do Rio de Janeiro (SMSRJ)’, que estará comemorando o 5º aniversário. E, no final da tarde, retornarão para o Instituto e depois vão até o Palácio de Cristal para aproveitar a 37ª Bauernfest. O evento é totalmente gratuito.
A expectativa dos organizadores é que cerca de 100 pessoas, incluindo surdos, ouvintes sinalizantes, alunos de Libras e familiares, participem. Além de petropolitanos, o movimento promove um intercâmbio entre participantes. “Além disso, já temos presenças confirmadas de participantes vindos do Rio de Janeiro, Niterói, São João de Meriti, Duque de Caxias, entre outras regiões, mostrando a força e a união regional do movimento”, contou Vânia.
Importância de acolher
A comunicação é um processo de troca de informações capaz de captar e transmitir sentimentos e emoções. Quando essa troca não atinge todos, o que precisa ser sentido ou falado não alcança o outro, deixando uma lacuna. Por isso, Vânia ressalta a importância de acolher alguém na própria língua. “Acolher uma pessoa na sua própria língua vai muito além de transmitir informações. Significa validar a existência, a cultura e a a dignidade daquela pessoa”, expressou.
Para ela, a verdadeira inclusão acontece quando o surdo não precisa se desdobrar para entender o ambiente, mas sim quando o espaço está pronto para recebê-lo. “Comunicar-se em Libras em um espaço público quebra as barreiras invisíveis do isolamento social, promove empatia real e dá visibilidade à comunidade”, disse.
Explicou ainda que a principal dificuldade hoje é a falta de acessibilidade linguística contínua. “Muitos locais e programações culturais enxergam a acessibilidade como algo opcional ou temporário, e não como um direito básico. Ir ao cinema, compreender uma peça de teatro ou fazer um tour histórico não deveriam ser privilégios dependentes de datas comemorativas. Precisamos de guias capacitados e da presença constante de intérpretes de Libras para garantir autonomia e o direito ao lazer e à cultura para a população surda”, enfatizou.
Com isso, ressaltou que a inclusão deve partir de cada indivíduo. E reforçou que o Instituto Alliance oferece curso básico de Libras para quem quer dar o primeiro passo. As inscrições abriram no dia 1º de julho, e o início das aulas está marcado para a primeira semana de agosto.