Recentemente participei do Congresso Brasileiro de Prevenção do Suicídio, realizado em Petrópolis. A abertura reuniu representantes de instituições de ensino, do poder público, pesquisadores, professores, especialistas e estudantes. Entre os diversos debates, um aspecto chamou atenção: a importância da atuação integrada dos profissionais da saúde (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, dentistas, psicólogos e tantos outros) na identificação de pacientes que apresentam sinais de sofrimento psíquico e risco de suicídio.
A saúde mental exige um olhar coletivo. Muitas vezes, um simples atendimento pode representar a oportunidade de perceber comportamentos, falas ou mudanças que indiquem a necessidade de acolhimento antes que uma tragédia aconteça.
Segundo o Conselho Federal de Medicina, os casos de suicídio no Brasil cresceram 43% entre 2010 e 2019. A meta brasileira de reduzir esses índices até 2030 dificilmente será alcançada, como destacou o vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps), Carlos Felipe de Almeida Oliveira, com quem tive a oportunidade de conversar durante o evento. Ainda assim, desistir dessa meta não pode ser uma alternativa. É preciso persegui-la, porque não estamos falando de estatísticas, mas de vidas, famílias e histórias interrompidas.
Em praticamente todas as palestras, uma palavra apareceu de forma recorrente: escuta. Mais do que conhecimento técnico, protocolos ou diagnósticos, escutar tornou-se uma ferramenta essencial de prevenção. Muitas pessoas não verbalizam diretamente o sofrimento que enfrentam, mas demonstram sinais que podem ser percebidos por quem está disposto a ouvir sem julgamentos.
Essa reflexão também alcança a imprensa. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros estabelece que a atividade jornalística deve ser exercida com compromisso com os direitos humanos. Ao mesmo tempo, a cobertura sobre suicídio exige responsabilidade, sensibilidade e cuidado para evitar efeitos nocivos decorrentes da divulgação inadequada dos casos.
Assim como grande parte dos veículos de comunicação, o Correio Petropolitano opta por não noticiar casos de suicídio. O assunto costuma ganhar maior visibilidade durante o Janeiro Branco, campanha dedicada à conscientização sobre saúde mental. Mas será que isso basta?
Talvez a missão da imprensa vá além de informar em momentos específicos do calendário. Há espaço para divulgar iniciativas de prevenção, orientar a população sobre onde buscar ajuda, apresentar histórias de superação, ouvir especialistas e contribuir para reduzir o estigma que ainda cerca os transtornos mentais. E essa responsabilidade não pertence apenas aos veículos tradicionais. Em tempos de redes sociais, influenciadores também exercem enorme poder de alcance e influência sobre milhões de pessoas.
Outro ponto que merece reflexão é justamente o papel dessas plataformas digitais. Segundo o Grupo Depressão Tem Cura, organização voluntária que atua em todo o país, o uso inadequado das redes sociais pode aumentar a vulnerabilidade de pessoas que já enfrentam sofrimento emocional. Entre adolescentes, os casos de suicídio cresceram 81% na última década. Entre menores de 14 anos, o aumento chegou a 114%, conforme dados do Ministério da Saúde.
É evidente que as redes sociais não são, por si só, responsáveis por esse cenário. Elas aproximam pessoas, democratizam informações e criam oportunidades. O problema está no uso que fazemos delas e na forma como algoritmos, padrões de comparação e a busca constante por aprovação podem afetar quem já vive uma situação de fragilidade emocional.
Vale, então, uma pergunta sincera: como temos utilizado as redes sociais? Elas têm contribuído para nossa saúde mental ou ampliado sentimentos de ansiedade, inadequação e solidão? As respostas não são simples. O enfrentamento ao suicídio também não.
O caminho é longo, exige investimentos, políticas públicas, formação profissional e informação de qualidade. Mas talvez o primeiro passo continue sendo o mais simples e, paradoxalmente, o mais difícil: escutar.
Antes de sermos médicos, jornalistas, professores, influenciadores ou profissionais de qualquer área, somos seres humanos. E, muitas vezes, uma escuta atenta, acolhedora e livre de julgamentos pode representar exatamente o que alguém precisava para encontrar uma razão a mais para continuar.