Nesta quinta-feira (17), o Correio Petropolitano Debate entrevistou o Coordenador do Observa Infância, Cristiano Boccolini, a fim de abordar o boletim divulgado pela instituição que apontou que apenas 11,4% das crianças, entre seis meses e cinco anos, foram imunizadas contra a covid-19 no país com pelo menos duas doses. O levantamento foi realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Unifase em Petrópolis, com base nos dados do Ministério da Saúde até o dia nove de agosto.
A análise ainda mostra que a cobertura vacinal entre bebês de seis meses a dois anos é ainda pior de 2,9%. Todavia, os problemas relacionados a baixa cobertura não se associam somente a covid-19, mas também a outras patologias. No dia 10 de agosto o Ministério da Saúde deu início a campanha de multivacinação a fim de cumprir com o objetivo. No Brasil, duas vacinas são disponibilizadas para o público infantil. A Pfizer pediátrica, voltada para crianças de seis meses a três anos, com a aplicação de três doses para completar o primeiro ciclo e a Coronavac com aplicação de duas doses para complementar a cobertura vacinal. Em 2022, o Estado do Rio de Janeiro registrou a menor média de cobertura vacinal em crianças do país, contra a poliomielite.
De acordo com o boletim, entre primeiro de janeiro e 11 de julho deste ano, 80 crianças até quatro anos morreram em decorrência da covid-19. O número de hospitalizações também preocupa os pesquisadores. Foram contabilizadas 2.764 internações, dessas, 994 no público entre um e quatro anos, o equivalente a 38 hospitalizações por semana. Para o coordenador, o cenário é muito preocupante. “É muito preocupante, porque muito foi compartilhado que as crianças não seriam contaminadas com a covid e isso não é verdade. No início da pandemia, duas mil crianças morreram por dia por conta da covid-19. As crianças estão suscetíveis sim aos casos graves da doença e a vacina ainda é a melhor ferramenta de prevenir a manifestação da doença de forma mais grave”, comenta.
A baixa procura pela imunização está atrelada a desinformação e a necessidade de reorganização da atenção primária a saúde. Para o coordenador é preciso pensar em alternativas para ampliar a cobertura vacinal no país. “Três fatores implicaram para essa queda na cobertura no país na última década. O primeiro, uma falta sensação de segurança. As pessoas acham que os filhos não vão contrair devido as doenças e isso se dá pela alta imunização das crianças no passado. Então, hoje é raro ver casos graves de pólio, por exemplo, mas, justamente por conta da imunização. O segundo fator está relacionado ao questionamento da segurança e eficácia da vacina, sobretudo no período mais crítico da pandemia, ou seja, a desinformação por redes sociais e o terceiro ponto, é uma necessidade de reorganização da Atenção Primária e Saúde. É buscar novos horários dos postos de vacinação, como aos fins de semana, outra alternativa é ampliar o horário dessas unidades para além do horário comercial, porque muitos pais trabalham e não conseguem levar os filhos para receberem o imunizante”, explica. Para a covid-19, a cobertura vacinal ideal é de 95% da população.
A preocupação devido aos índices apresentados, está relacionado também a nova variante da covid-19 a BA-6 que podem burlar o esquema vacinal como apenas duas doses. A orientação de especialistas e profissionais de saúde, é procurar uma unidade para receber o imunizante bivalente.
Até o fim deste mês, os pesquisadores devem apresentar a segunda etapa da pesquisa que aponta os dados de forma regionalizada. O Observatório de Saúde na Infância é uma iniciativa de divulgação científica para levar ao conhecimento da sociedade dados e informações sobre a saúde de crianças de até 5 anos.
Por Richard Stoltzenburg/Foto: TVC