Segundo o arquiteto e urbanista Marcelo Monteiro, mais de dois terços das fraturas graves na terceira idade são causadas por quedas dentro de casa e podem ser evitadas com Desenho Universal e intervenções simples
Celebrado em 1º de outubro, o Dia Nacional e Internacional da Pessoa Idosa costuma trazer homenagens à sabedoria de quem construiu a sociedade. Mas, para o arquiteto e urbanista Marcelo Monteiro, especialista em planejamento urbano e mobilidade e docente da Estácio, a data precisa expor uma urgência pouco debatida: os lugares onde vivemos estão prontos para receber o envelhecimento?
“A resposta curta e sincera é não. O Brasil envelhece em ritmo acelerado, mas as nossas cidades e habitações continuam projetadas com a premissa de um usuário jovem, ágil e imune a tropeços. Quando o corpo perde reflexos ou velocidade de passada, o ambiente construído rapidamente se converte de abrigo em obstáculo”, afirma Monteiro.
Segundo o especialista, a perda de autonomia do idoso raramente começa por uma doença súbita. Ela tem início físico e espacial dentro da própria residência.
“Mais de dois terços das fraturas graves na terceira idade decorrem de quedas no ambiente doméstico, tendo o banheiro como o principal cenário de risco. A arquitetura trata esse desafio a partir do Desenho Universal — conceito estabelecido por normas técnicas como a NBR 9050, que prega a criação de espaços utilizáveis por todas as pessoas, na sua máxima extensão possível, sem necessidade de adaptações segregadoras ou humilhantes”, explica.
Para Marcelo, garantir segurança não exige reformas milionárias, mas sim clareza técnica.
“O piso deve apresentar um alto coeficiente de atrito, isto é, a aderência mecânica que impede o calçado ou o pé descalço de deslizar em contato com água e sabão. Eliminar o desnível do boxe, adotando ralos lineares ao nível do piso, e substituir portas pivotantes por portas de correr ou que abram para fora são medidas simples que salvam vidas. Se alguém sofre uma tontura e cai contra a porta no banheiro, ela não ficará bloqueada pelo próprio corpo, viabilizando o socorro imediato”, detalha.
O especialista também chama atenção para outros dois pontos críticos dentro de casa: “A fixação de barras de apoio exige ancoragem estrutural firme em alvenaria ou concreto, dispensando modelos móveis de ventosa que dão falsa sensação de firmeza. E a iluminação residencial precisa compensar as mudanças naturais da visão senil, que exige mais iluminância e necessita de contrastes nítidos de cor entre o chão, os degraus e os rodapés para evitar armadilhas visuais”.
Da porta de casa para a rua, o desafio se multiplica
Se dentro de casa o risco já é alto, na calçada ele se amplia, analisa o docente da Estácio.
“A calçada não é um prolongamento da garagem do morador, mas sim um canal essencial de mobilidade pública. Ela precisa conter uma faixa livre contínua, ou seja, uma faixa central desobstruída, sem postes, degraus de acesso veicular, lixeiras ou remendos de piso, garantindo passagem nivelada com no mínimo 1,20 metro de largura útil”, aponta.
Na rua, a relação de forças é ainda mais desigual.
“Os semáforos de pedestres costumam ser temporizados considerando uma velocidade média de caminhada de 1,2 metro por segundo. Um ritmo inviável para uma pessoa que caminha a passos curtos, apoiada em uma bengala ou lidando com dores articulares, cujo ritmo médio gira em torno de 0,8 metro por segundo. A geometria urbana pode corrigir isso com extensões de calçada, que reduzem a distância total de travessia do asfalto, estreitam a pista no cruzamento e forçam o motorista a desacelerar naturalmente”, completa.
Para Marcelo, uma cidade amigável à velhice também precisa oferecer pausas com bancos distribuídos ao longo dos caminhos cotidianos, com assentos na altura correta de 45 centímetros e braços de apoio firmes para impulsionar o levantar e sombreamento arbóreo para conforto térmico.
“Garantir acessibilidade não é criar concessões ou privilégios para uma faixa etária isolada. A mesma calçada nivelada que atende o idoso acolhe a criança pequena, o pai empurrando o carrinho de bebê e a pessoa com uma lesão temporária no joelho. Projetar residências seguras e cidades caminháveis é investir na qualidade de vida coletiva e no futuro inevitável de cada um de nós. Envelhecer com dignidade e autonomia não é apenas uma questão de saúde, mas uma decisão de projeto”, conclui.