Por Gabriel Rattes
Com o término da CPI da Águas do Imperador, no dia 27 de março, um dos pontos que mais chamaram a atenção foram os questionamentos levantados pelo Comitê Piabanha sobre o modelo de drenagem urbana de Petrópolis — considerado ultrapassado e insuficiente para a realidade atual da cidade. Segundo a diretora do comitê, Rafaela Facchetti, durante a audiência realizada no dia 18 de março, parte da estrutura ainda segue um padrão antigo, criado no período imperial, quando a cidade foi planejada.
Esse sistema, conhecido como rede unitária, mistura a água da chuva com o esgoto na mesma tubulação. Na prática, isso significa que, em dias de chuva forte, o volume aumenta rapidamente e o sistema não consegue dar vazão. Rafaela destacou que Petrópolis está entre as três cidades brasileiras mais atingidas por eventos climáticos extremos, como chuvas intensas. “Não é possível que a gente não faça uma reforma na drenagem”, afirmou.
Com o aumento da frequência e intensidade das chuvas nos últimos anos, o problema estrutural se torna ainda mais grave. Isso porque o sistema atual não foi projetado para lidar com grandes volumes de água em pouco tempo. Na prática, isso faz com que a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) só funcione em períodos sem chuva, o que não é recomendado para uma cidade como Petrópolis – que possui altos índices pluviométricos.
Coleta de esgoto
Outro ponto destacado por Rafaela foi a diferença entre o esgoto coletado e o efetivamente tratado. Embora a concessionária informe altos índices de tratamento, o Comitê Piabanha questiona o alcance da coleta. “A Águas do Imperador declara que trata 90% do esgoto, mas é 90% do que é coletado. O problema é que não se coleta tudo”, disse.
Na prática, isso significa que parte do esgoto ainda pode estar sendo despejada sem tratamento adequado, impactando rios e o meio ambiente. Além disso, a diretora classificou o serviço como desigual. “Hoje, a Águas do Imperador presta um excelente serviço de abastecimento de água, mas um péssimo serviço de tratamento de esgoto”, afirmou.
Tubulações nos rios
A instalação de tubulações nos leitos dos rios também foi alvo de críticas durante a audiência. De acordo com o Comitê Piabanha, esse tipo de intervenção pode reduzir a capacidade de vazão dos rios e aumentar o risco de enchentes. “O Comitê tem contestado essas tubulações que assoreiam nossos rios e dificultam a dragagem”, destacou Rafaela.
Ela também apontou que os rios de Petrópolis possuem valor histórico e paisagístico, e que o planejamento original da cidade não previa o uso desses espaços para condução de esgoto. “Sou pesquisadora da Fiocruz e meu objeto de pesquisa são as inundações de Petrópolis. Eu acompanho com muito interesse esse assunto. Nossos rios são tombados, eles não podem sofrer esse tipo de dano. Todo projeto de fundação da nossa cidade previa redes de esgoto levando para estações de tratamento fora”, enfatizou.
Modelo de tarifa
A forma de cobrança da tarifa de água e esgoto foi outro tema central da fala. Segundo Rafaela, o modelo atual pode gerar cobrança considerada injusta para o consumidor, já que o valor do esgoto é calculado com base no custo financeiro da conta de água — e não no volume efetivamente utilizado.
O sistema atual prevê uma tarifa mínima e aumento progressivo conforme o consumo, com o objetivo de reduzir o desperdício de água. No entanto, o Comitê defende que a cobrança do esgoto deveria ser feita por metro cúbico tratado, e não pelo valor final da conta. “Não se pode cobrar o valor do esgoto penalizando duplamente o consumidor”, afirmou.
O Correio Petropolitano já havia apontado, também no dia 19 de março, os problemas relacionados ao aumento nas contas de água em Petrópolis, com relatos de moradores sobre cobranças elevadas e falta de correspondência com o serviço prestado.
Na ocasião, foram apresentados casos de contas que chegaram a triplicar após intervenções da concessionária, sem que houvesse melhora perceptível no sistema de esgoto em algumas localidades.
Falta de transparência
Outro ponto abordado na audiência foi a falta de transparência da concessionária Águas do Imperador com o Comitê Piabanha, que é o responsável pelo gerenciamento dos recursos hídricos da região. Segundo a diretora do comitê, não há informações completas por parte da concessionária desde de 2022.
“A Águas do Imperador participa das reuniões do Comitê, mas apenas com funcionários de baixo escalão, sem poder de decisão. O Comitê não foi consultado sobre as instalações das tubulações nos leitos dos rios em Petrópolis e hoje não há transparência por parte da empresa”, afirmou.
O que diz a empresa?
Procurada pela redação do Correio Petropolitano, a empresa Águas do Imperador não respondeu nossos questionamentos até o fechamento desta edição.
Relatório da CPI já foi protocolado
Após as oitivas e investigações, o relatório final da CPI da Águas do Imperador foi protocolado no dia 27 de março de 2026. Segundo a comissão, foram 135 dias de trabalho, com oitivas, fiscalizações e análise de documentos.
“Foi um processo sério, conduzido com responsabilidade e compromisso com a população. Seguiremos acompanhando de perto todos os desdobramentos desta investigação, para garantir transparência e que as medidas necessárias sejam efetivamente cumpridas”, disse.
O que diz a conscessionária?
“Águas do Imperador informa que a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Rio Quitandinha, localizada na Avenida Washington Luiz, opera dentro dos padrões técnicos exigidos, com eficiência e regularidade.
A concessionária explica que as intervenções realizadas nos coletores da Bacia do Quitandinha estão, em grande parte, relacionadas aos impactos provocados pela tragédia climática de 2022, além de interferências externas na rede. Essas situações foram comunicadas ao Município na época.
Sobre o modelo do sistema de esgotamento sanitário adotado na cidade, a empresa destaca que ele está previsto no Plano Municipal de Saneamento Básico e nos contratos firmados com o poder público. A escolha leva em conta as características de Petrópolis, como o relevo acidentado, a ocupação urbana e o alto volume de chuvas.
Em relação às contas, os valores cobrados são proporcionais ao consumo de água e à implantação do tratamento de esgoto. Os benefícios desse serviço, como melhorias na saúde pública, na qualidade dos rios e no meio ambiente, tendem a aparecer ao longo do tempo, com a redução da poluição e dos riscos sanitários.
A concessionária reforça que a cobrança segue as regras contratuais e regulatórias vigentes e é fundamental para garantir a manutenção do sistema e a realização de novos investimentos.
A Águas do Imperador também informa que vem realizando ações contínuas de comunicação com a população. Um exemplo foi o encontro promovido no último dia 24 de março, na quadra do Serrinha, com o objetivo de esclarecer dúvidas sobre os serviços, o funcionamento do sistema e os critérios de cobrança.
Por fim, a empresa permanece à disposição para prestar esclarecimentos e reforça seu compromisso com a transparência, a qualidade dos serviços e o atendimento à população.”