As canetas emagrecedoras se tornaram uma verdadeira febre no Brasil. Resultados rápidos, emagrecimento e recuperação da autoestima são alguns dos benefícios apontados por quem busca esse tipo de medicamento. Em um mundo imerso nas redes sociais, onde um reels vende a ideia de transformações instantâneas, é preciso reforçar uma verdade simples: saúde não se conquista em poucos segundos nem deslizando a tela do smartphone.
A lógica da instantaneidade das redes sociais tem influenciado a forma como as pessoas enxergam o próprio corpo e os resultados que desejam alcançar. Se um vídeo de 30 segundos promete uma mudança radical, muitos passam a acreditar que a vida real também deveria funcionar assim. O uso das canetas, originalmente indicado para públicos específicos, como pessoas com obesidade e Índice de Massa Corporal (IMC) superior a 30, tornou-se comum entre indivíduos que sequer possuem indicação clínica. Em muitos casos, o medicamento é utilizado sem qualquer orientação médica ou acompanhamento especializado.
O que importa, para muitos, é apenas o resultado mostrado nas redes sociais. Entretanto, os riscos existem e são conhecidos. Estudos já apontam que o uso inadequado ou sem supervisão médica pode provocar efeitos colaterais como náuseas, vômitos, diarreia e constipação intestinal. Em situações mais graves, podem ocorrer perda de massa muscular, formação de cálculos na vesícula biliar e outras complicações. E essa é apenas parte dos possíveis impactos. Embora os meios de influência tenham mudado ao longo das décadas, antes eram revistas e programas de televisão; hoje são as redes sociais, a busca pelo chamado corpo perfeito permanece praticamente a mesma. O padrão apenas mudou de plataforma. Continua sendo vendido o conceito de que um corpo magro e atlético é, necessariamente, sinônimo de saúde, quando a realidade é muito mais complexa.
O uso das canetas emagrecedoras pode, sim, representar um importante recurso terapêutico, desde que acompanhado por profissionais da saúde. O tratamento da obesidade envolve uma abordagem multidisciplinar, com endocrinologista, nutricionista e a prática regular de atividade física. Não existe fórmula mágica. Outro fator preocupante é a origem desses medicamentos. Segundo levantamento da Scanntech, cerca de 50% das vendas de canetas emagrecedoras no Brasil são provenientes do mercado informal, ou seja, produtos comercializados sem avaliação ou autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Além dos riscos inerentes ao medicamento, muitos consumidores sequer sabem o que estão aplicando no próprio organismo. Talvez o maior paradoxo esteja justamente aí. Quando surge uma nova vacina, multiplicam-se dúvidas sobre eficácia, segurança e possíveis efeitos adversos. Mas, quando o assunto é estética, a principal pergunta deixa de ser “quais são os riscos?” e passa a ser “em quantas semanas vou emagrecer?”. Não se trata de condenar o uso das canetas emagrecedoras. Elas representam um importante avanço no tratamento da obesidade e melhoram a qualidade de vida de milhares de pessoas quando utilizadas corretamente.
O problema começa quando a pressa supera a prudência, quando a estética fala mais alto que a saúde e quando um vídeo de poucos segundos passa a valer mais do que a orientação de um profissional. Afinal, saúde não cabe em um reels. Ela exige tempo, acompanhamento, responsabilidade e, sobretudo, bom senso.