Por Gabriel Rattes
Uma área equivalente a cerca de 42 campos de futebol foi destruída pelo incêndio que atingiu o Pico da Caledônia, em Nova Friburgo. As chamas consumiram aproximadamente 30 hectares de vegetação no Parque Estadual dos Três Picos, uma das mais importantes unidades de conservação da Mata Atlântica no estado do Rio de Janeiro. Além da perda da cobertura vegetal, especialistas alertam para os impactos sobre a fauna, a flora e espécies ameaçadas de extinção.
O incêndio, que começou na manhã do dia 31 de julho, só foi completamente extinto em 2 de agosto, após três dias de combate realizado por equipes do Corpo de Bombeiros e do Instituto Estadual do Ambiente (INEA).
Criado em 2002, o Parque Estadual possui mais de 65 mil hectares distribuídos entre os municípios de Nova Friburgo, Teresópolis, Guapimirim, Cachoeiras de Macacu e Silva Jardim. A unidade de conservação abriga o maior índice de biodiversidade do estado e é reconhecida internacionalmente como uma área prioritária para a conservação de aves, reunindo espécies raras, endêmicas e ameaçadas de extinção.
Danos ambientais
Além da vegetação destruída, especialistas alertam para os impactos causados à fauna silvestre. O ambientalista e criador do projeto Aventura Animal, Juran Santos, acompanhou a ocorrência e destacou que o prejuízo ambiental vai muito além da área queimada. “A quantidade que você perde, a biodiversidade que você perde da flora e da fauna nesse lugar é algo incalculável. Temos espécies ameaçadas de extinção, como a saíra-de-asa-cinza, orquídeas raríssimas da Mata Atlântica, além de animais que não conseguem fugir das chamas”, afirmou.
Segundo ele, o incêndio também altera o comportamento da fauna sobrevivente. Espécies de maior porte, como a onça-parda, acabam deixando seus territórios em busca de áreas seguras, aumentando a disputa por espaço e alimento e provocando desequilíbrios no ecossistema.
“Quando o território desse animal é destruído, ele precisa migrar para outra área, onde pode encontrar outro indivíduo. Isso gera conflitos e afugenta ainda mais a fauna. São impactos que nem sempre conseguimos enxergar de imediato, mas que comprometem toda a Mata Atlântica”, explicou.
Recuperação lenta
Além da perda de animais, o fogo destruiu áreas de vegetação nativa e comprometeu habitats utilizados para alimentação, reprodução e abrigo de diversas espécies. O projeto Aventura Animal informou que precisou retirar dez câmeras de monitoramento instaladas na região em razão do incêndio.
Em publicação nas redes sociais, o grupo ressaltou que a recuperação da área levará muitos anos e destacou a atuação de guarda-parques e bombeiros no combate às chamas. “O incêndio nos lembra que a natureza não tem voz para pedir socorro. Ela depende das nossas atitudes, do nosso respeito e da nossa responsabilidade”, destacou o projeto.
Área protegida
O Parque Estadual dos Três Picos foi criado para preservar remanescentes da Mata Atlântica, proteger espécies ameaçadas, conservar nascentes e corpos hídricos e incentivar atividades de pesquisa, educação ambiental e recreação sustentável. A unidade também integra importantes corredores ecológicos do estado e desempenha papel fundamental na manutenção da biodiversidade da Serra do Mar.
Linha Verde
Dados do programa Linha Verde, do Disque Denúncia, mostram que o estado do Rio de Janeiro já registrou 18.617 denúncias de crimes ambientais em 2026. Desse total, 999 foram relacionadas a queimadas, tornando esse o quinto tipo de ocorrência mais denunciado no período.
Na Região Serrana, Petrópolis lidera o número de denúncias ambientais registradas, com 550 ocorrências, seguida por Teresópolis, com 232, e Nova Friburgo, com 196. Os dados reforçam a importância da denúncia da população no combate aos crimes ambientais e na prevenção de incêndios florestais.
Como denunciar?
Em casos de incêndio florestal com fogo ativo, a orientação é acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros, pelo telefone 193. Já denúncias de crimes ambientais, como queimadas ilegais, desmatamento e maus-tratos contra animais, podem ser feitas de forma anônima à Linha Verde, do programa Disque Denúncia, pelos telefones (21) 2253-1177 (capital) ou 0300 253 1177 (interior do Estado do Rio de Janeiro).