O Agosto Lilás reforça, durante todo o mês, a importância da prevenção e do combate à violência contra a mulher. A campanha também chama atenção para a necessidade de acolhimento e garantia de direitos às vítimas. Mesmo após quase 20 anos da criação da Lei Maria da Penha, romper o ciclo da violência ainda é um desafio para muitas brasileiras, que podem enfrentar dependência emocional, financeira e social.
Segundo Tânia Gomes, professora do Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde e do curso de Medicina da UniCesumar de Maringá, a pergunta “por que ela não vai embora?” desconsidera a complexidade das relações abusivas. De acordo com a especialista, esses relacionamentos podem alternar momentos de tensão, agressão, arrependimento, pedidos de desculpas e períodos de aparente tranquilidade, conhecidos como “lua de mel”.
Esse ciclo pode confundir a vítima, enfraquecer a autoestima e dificultar o rompimento da relação. Além disso, fatores como dependência financeira, filhos pequenos, dificuldade para voltar ao mercado de trabalho e o descumprimento de obrigações por parte dos agressores podem tornar a decisão ainda mais difícil.
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que a violência contra a mulher continua em alta no país. Em 2025, foram registrados 1.571 feminicídios, um aumento de 4% em relação aos 1.504 casos registrados em 2024. Foi o maior número registrado desde o início da série histórica, em 2015.
O levantamento também apontou crescimento em outros tipos de violência contra a mulher. Os registros de violência psicológica aumentaram 17%, os casos de stalking tiveram alta de 30% e os descumprimentos de medidas protetivas cresceram 17%.
A violência pode começar antes da agressão física
A violência psicológica costuma aparecer antes das agressões físicas e pode ser mais difícil de identificar. Humilhações, controle, desvalorização e comentários que diminuem a mulher são alguns dos sinais.
Segundo a especialista, relacionamentos abusivos podem começar com comportamentos tratados como “brincadeiras”, como piadas humilhantes e comentários que questionam a capacidade da mulher como profissional, mãe ou companheira. Com o tempo, essas atitudes podem se intensificar e provocar sofrimento emocional e outros problemas de saúde.
Rede de apoio é fundamental
A Lei Maria da Penha ampliou os mecanismos de proteção às mulheres, mas a reconstrução da vida após uma situação de violência também depende de uma rede de apoio. Psicólogos, assistentes sociais, profissionais da saúde e grupos de acolhimento podem ajudar as vítimas durante o processo de denúncia e recuperação.
Para Tânia Gomes, o enfrentamento da violência doméstica precisa envolver segurança, atendimento psicológico, assistência social e condições para que as mulheres tenham autonomia e consigam reconstruir suas vidas.
A especialista também destaca que a violência contra a mulher deve ser tratada como uma questão de saúde pública, devido aos impactos físicos e psicológicos que pode provocar, como depressão, ansiedade, dores crônicas e outros transtornos emocionais.
Além da proteção às vítimas, o combate à violência envolve mudanças culturais, com incentivo ao respeito, à igualdade de gênero e à educação desde a infância.