Em petição à Justiça, Município reconhece que intervenção parcial não recuperou serviço e diz que ainda apura situação da empresa
A intervenção da Prefeitura de Petrópolis na Turp Transporte completa quase cinco meses sem uma solução definitiva para a crise enfrentada no transporte coletivo do município. A primeira medida foi decretada em 20 de maio de 2026, de forma parcial, diante de problemas na prestação do serviço, dificuldades na situação econômico-financeira da empresa e paralisações de funcionários. Em 17 de setembro, o Município ampliou a medida e decretou a intervenção total na operação.
Em petição protocolada, na 4ª Vara Cível no dia 25 de setembro, a Prefeitura admitiu que a intervenção parcial realizada na Turp não foi suficiente para restabelecer o serviço nos padrões de qualidade previstos no contrato firmado com a empresa. O Município informou ainda que as medidas adotadas durante a intervenção total continuam em andamento.
O posicionamento veio a público em meio à sequência de problemas enfrentados pelos passageiros e poucos dias depois de a Prefeitura informar, ao Correio Petropolitano, que a capacidade de manutenção simultânea da frota caiu de oito a dez para apenas dois ônibus.
O documento foi apresentado no processo movido pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que pede o afastamento da Turp da operação, a assunção do serviço pela Prefeitura em até 30 dias e, em caráter definitivo, a decretação da caducidade da concessão. A caducidade é a extinção da concessão por descumprimento de obrigações previstas no contrato e na legislação.
Intervenção não resolveu crise
Na petição, o Município relembra que decretou uma intervenção parcial na Turp no dia 20 de maio de 2026, depois de problemas relacionados à qualidade do serviço, indícios de comprometimento da capacidade econômico-financeira da empresa e paralisações de funcionários por questões trabalhistas.
Segundo a Prefeitura, a intervenção parcial trouxe alguma melhora nos índices de viagens e contribuiu para a regularização de reivindicações trabalhistas, mas não foi suficiente para colocar o sistema no padrão considerado adequado. Por esse motivo, uma intervenção total foi decretada no dia 17 de setembro.
O Município afirma, porém, que a intervenção total ainda está no começo e que as medidas para regularizar a operação continuam em andamento. A Prefeitura também informa que o processo administrativo aberto para apurar a situação da concessionária está na fase de apresentação da defesa da Turp.
Caducidade
Apesar de reconhecer a gravidade dos problemas, a Prefeitura não se posicionou, neste momento, a favor ou contra o pedido de caducidade feito pelo Ministério Público. Na avaliação apresentada à Justiça, uma decisão antecipada poderia interferir no processo administrativo que ainda precisa garantir o contraditório e a ampla defesa da concessionária.
Na prática, o Município sustenta que pretende aguardar a conclusão desse procedimento para definir quais medidas poderão ser adotadas contra a Turp dentro das regras da Lei de Concessões.
A Prefeitura também faz uma ressalva sobre uma eventual decisão judicial que determine a saída da empresa. Caso a Justiça não estabeleça a transferência imediata dos bens, estruturas e equipamentos utilizados atualmente pela Turp, o Município afirma que precisará de tempo para requisitar administrativamente os recursos necessários para manter o transporte.
Crise aparece também nas ruas
A discussão judicial ocorre enquanto passageiros enfrentam dificuldades no dia a dia. Em matéria publicada pelo Correio Petropolitano nesta terça-feira (06), a Prefeitura informou que a perda da principal garagem da Turp, em Itaipava, reduziu a capacidade das oficinas da empresa. A estrutura tinha capacidade para reparar de oito a dez ônibus ao mesmo tempo. Sem o espaço, o atendimento passou a comportar apenas dois veículos simultaneamente.
A própria Prefeitura afirmou que essa limitação exige ajustes temporários no número de viagens enquanto os ônibus passam pelas manutenções obrigatórias. Entre as linhas apontadas como prioridade está a 700, entre o Terminal Itaipava e outras áreas do município.
Enquanto o poder público e a Justiça discutem os próximos passos para o sistema, os passageiros continuam relatando os impactos da falta de ônibus e dos atrasos.
Voz do povo
A dona de casa Maria Gabriela dos Santos criticou as dificuldades enfrentadas pelos passageiros e classificou a situação como desumana. “É algo desumano, não só para o trabalhador, mas para toda a civilização”.
O aposentado Ronaldo Manzala relatou ao Correio que aguardava há mais de uma hora por um ônibus da linha Jardim Salvador. “Eu tô aqui há mais de uma hora esperando o Jardim. Isso é todo dia, um dia sim, o outro também”.
Para a auxiliar de serviços gerais Valdete Profilho, o problema pesa principalmente sobre quem depende do transporte para trabalhar. “Muito desumano com a população trabalhadora. Levanta cedo para ir trabalhar e não temos ônibus”.
A diarista Vera Lúcia Morgado também destacou o impacto financeiro e social provocado pelos problemas no serviço. “O trabalhador é que paga. Infelizmente é a gente que paga”.
Por Gabriel Rattes