Envelhecer pode trazer mudanças na rotina, perdas e, muitas vezes, solidão. Nesse cenário, atividades coletivas ganham importância por favorecerem a convivência e a criação de vínculos. No Programa de Atenção da Terceira Idade (Pater), do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro (CPRJ), a musicoterapia é uma das ferramentas utilizadas para promover saúde mental e bem-estar entre idosos.
Uma vez por semana, a seresta reúne pacientes para cantar, conversar, compartilhar memórias e fazer novas amizades. A atividade ganha destaque neste Dia Mundial da Saúde Mental (10/10).
“Eu tenho pacientes no consultório que trazem diversos relatos. Os amigos morreram, se mudaram ou estão doentes e não conseguem sair de casa. Muitas vezes, a pessoa não encontra um lugar onde possa interagir com outras pessoas. Aqui é como uma grande família, uma instituição em que as pessoas chegam e se sentem em casa. A atividade diminui a sensação de abandono e diminui muito a depressão”, explica a geriatra Ana Lúcia Vilela, responsável pelo Pater.
É o caso da aposentada Graça Bione, de 69 anos, que participa do programa desde o início. “Tenho um grupo com pessoas da mesma faixa etária, assuntos em comum, amizades. Para mim, isso é muito importante. É um lugar onde eu me sinto bem e que tem me ajudado muito”, conta a moradora da Gamboa.
Aos 85 anos, Severino Enedino também encontrou no programa uma oportunidade de convivência. “Eu moro sozinho. Aqui tenho a oportunidade de conversar, fazer amizades, participar das atividades e me divertir. Isso faz diferença na minha vida, pois passo a semana sozinho, sem falar com ninguém”, diz o morador de Benfica.
Para Ana Lúcia, os benefícios da música vão além da diversão. “A musicalidade é uma das últimas coisas que a gente perde, mesmo quando está demenciado. A pessoa pode estar em um mundo mais distante, mas canta, sente”, afirma. Segundo a médica, a música também pode despertar sentimentos e memórias e promover uma mudança no estado mental.
Um cuidado que vai além da consulta
A seresta é parte de um atendimento multidisciplinar voltado a pessoas com 60 anos ou mais que apresentam sintomas ou quadros psiquiátricos e moram em bairros da região central do Rio.
“O atendimento considera não apenas o diagnóstico e a medicação, mas também cognição, condições clínicas, alimentação, mobilidade, contexto social e qualidade de vida”, explica o diretor-geral do CPRJ, Francisco Sayão.
A equipe reúne profissionais de Geriatria, Psiquiatria, Serviço Social, Nutrição e Fisioterapia. O acompanhamento pode incluir avaliação clínica e neuropsicológica, exames laboratoriais, fisioterapia e atividades terapêuticas, como a musicoterapia.
O CPRJ fica na Rua do Propósito, 231, na Gamboa. O paciente pode procurar a unidade e passar inicialmente por avaliação na emergência, que fará o encaminhamento ao Serviço Social e, posteriormente, ao Pater.