Restringir celulares pode reduzir estímulos, mas educação também ajuda alunos a desenvolver uma relação mais consciente com a própria atenção
A volta às aulas traz para o professor um desafio que vai muito além da transmissão de conteúdo: a disputa pela atenção dos alunos. Em sala de aula, a concorrência não acontece apenas com o celular ou as redes sociais, mas com os diferentes mundos que acompanham cada estudante, como referências, conversas, imagens, tendências, desejos e preocupações.
Para Natália Gabrich, publicitária e docente da Estácio, existe um movimento contínuo entre estar fisicamente na sala de aula e permanecer conectado ao que acontece fora dela. Nesse contexto, ela considera compreensível que algumas instituições optem por restringir o uso de celulares e outros dispositivos. Segundo a professora, reduzir estímulos pode favorecer a concentração, o silêncio e o aprofundamento. No entanto, essa medida não encerra a discussão.
“O celular pode sair da mesa, mas a lógica da hiperconexão não desaparece com ele. O problema não está simplesmente no estímulo, mas no excesso, na simultaneidade e na lógica de captura permanente da atenção”, afirma a profissional.
Na avaliação da docente, reduzir estímulos em determinados momentos pode ser necessário, mas resolve apenas parte da questão. Para ela, a educação também precisa contribuir para que o aluno aprenda a escolher, sustentar e deslocar conscientemente a própria atenção.
A reflexão ganha contornos particulares nas aulas de Publicidade, área em que aquilo que circula nas redes, nas campanhas e nas marcas pode se transformar em matéria para discutir cultura, consumo, desejo e identidade. Para Gabrich, o desafio é entrar no fluxo em que os alunos estão inseridos sem se render à velocidade desse fluxo.
“Não basta trazer o mundo do aluno para a aula. É preciso deixar que ele também traga a própria leitura desse mundo”, explica.
Nesse processo, a professora entende que a aula pode ganhar força quando o docente deixa de ocupar permanentemente o centro e abre espaço para que os alunos discordem, estabeleçam relações, questionem e produzam sentidos. Ao mesmo tempo, ela ressalta que uma aula não precisa imitar as redes sociais para ser interessante.
“Educar também é aprender a permanecer diante daquilo que exige tempo, silêncio, esforço e elaboração”, afirma.
Depois de tantos anos em sala de aula, Natália define a educação como uma relação de mutualidade, em que ensinar e aprender acontecem simultaneamente. Para ela, em um mundo construído para capturar a atenção o tempo inteiro, ensinar também significa ajudar o aluno a perceber onde está colocando sua atenção, por que está colocando ali e quando vale a pena permanecer.
Por isso, para ela, a discussão sobre o uso de celulares nas escolas não deveria se limitar à escolha entre permitir ou proibir os dispositivos. Retirar aquilo que disputa a atenção pode protegê-la por algum tempo, mas o desafio maior está em ajudar o estudante a desenvolver autonomia sobre ela.
“O desafio maior da educação é ajudar o aluno a se tornar autor da própria atenção”, conclui Natália