A adolescência é uma fase marcada por profundas transformações. Mudanças físicas, emocionais e sociais fazem parte de um período em que os jovens começam a construir com mais autonomia sua identidade, seus valores e sua forma de se relacionar com o mundo. Nesse contexto, a educação socioemocional se torna cada vez mais importante dentro e fora da escola. Mas como preparar os adolescentes para lidar com conflitos, frustrações, responsabilidades, relações interpessoais e sentimentos de pertencimento?
A proposta pedagógica Montessori traz importantes reflexões sobre esse processo ao considerar que a educação vai além da transmissão de conteúdos. Para Maria Montessori, fundadora do método, cada fase do desenvolvimento humano apresenta necessidades específicas e a adolescência deve ser compreendida como um período de intensas descobertas e construção pessoal.
Na educação Montessori, o adolescente é incentivado a desenvolver autonomia, responsabilidade e consciência sobre seu papel na comunidade. As experiências de convivência, o trabalho coletivo e a possibilidade de participar ativamente das decisões e da rotina contribuem para o fortalecimento das habilidades socioemocionais.
“Precisamos observar que existe uma necessidade social dessa pessoa que passa a sentir vontade de ir além família, desse meio familiar, e criar sua identidade com os grupos e encontrar a sua própria tribo. E isso acontece, naturalmente, dentro da escola, porque é ali, no cotidiano, que esses grupos se formam. No dia a dia, damos voz a eles e a liberdade de pensar e se expressar. É importante que eles sintam a vida acontecendo, por isso, oportunizamos que participem das atividades escolares fortemente, então, tem um projeto social, eles se engajam, assim como nas Olimpíadas, na Feira do Conhecimento, na Feira do Empreendedorismo, por exemplo”, comenta Corolina Mendes, psicopedagoga e diretora da Escola Roda Criativa.
Aprender a conviver também faz parte da educação
As relações interpessoais ocupam um papel fundamental durante a adolescência. É nesse período que muitos jovens ampliam seus círculos sociais, passam a questionar diferentes pontos de vista e aprendem, muitas vezes por meio dos próprios conflitos, a construir relações mais maduras.
No ambiente escolar, os conflitos podem se transformar em oportunidades de aprendizado quando são tratados com escuta, diálogo e respeito. A proposta Montessori busca estimular os estudantes a compreender as consequências de suas atitudes, ouvir o outro e participar da construção de soluções.
“É preciso ensinar os limites com diálogo, passando para esses adolescentes o que é saudável, o que machuca o outro e o que incomoda, quando surge um conflito. Nesses momentos, sentamos em roda para conversar olho no olho e proporcionamos a eles a oportunidade de se expressarem e isso ajuda muito. Buscamos sempre que eles façam uma autorreflexão, que se olhem, se escutem, se percebam. Quando fazem um trabalho mal feito, sentamos e conversamos: ‘vem cá, o que você acha desse seu trabalho? Você acha realmente que você merece uma nota mais alta? E esse comportamento que você teve? O que a gente pode mudar? O que você achou disso?’. Então é sempre nesse lugar de escuta”, explica Carolina.
Portanto, mais do que evitar conflitos, a educação socioemocional pode ajudar os adolescentes a desenvolver ferramentas para lidar com questões da vida de maneira mais consciente.
Responsabilidade e pertencimento
Outro aspecto importante da adolescência é a necessidade de pertencimento. Sentir-se parte de um grupo, de uma comunidade e de um ambiente onde suas ideias são ouvidas pode fazer diferença no desenvolvimento emocional dos jovens.
Na metodologia Montessori, a responsabilidade está diretamente relacionada à autonomia. À medida que o adolescente conquista mais liberdade, também é convidado a compreender os impactos de suas escolhas e assumir compromissos consigo mesmo e com os outros.
Esse processo contribui para que o jovem deixe de ocupar apenas uma posição passiva e passe a perceber seu papel dentro da comunidade.
“Diálogo é a base de tudo. Colocamos limites de maneira clara, mantendo sempre a conversa, mostrando que a escola tem regras e que podemos ser o porto seguro deles mesmo quando erram, com escuta ativa e orientações, pois, de fato, estão vivenciando um momento de grandes descobertas. Acreditamos que a responsabilidade não deve vir pelo medo, mas de um lugar de consciência, do porquê eu tenho que cuidar do espaço, porque eu tenho que ter responsabilidade na hora que eu vou me comunicar com o outro. Esse é um trabalho em conjunto com a família para uma base sólida de crescimento com empatia, cuidado, respeito, boa comunicação, segurança e afeto”, conclui a Carolina.