Por Gabriel Rattes
A mobilização da sociedade civil nas ruas e nas redes sociais está entre os fatores que ajudam a explicar o avanço de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, na avaliação do cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), George Gomes Coutinho. Para o pesquisador, as três semanas entre as duas etapas da disputa foram marcadas por mudanças na comunicação política, na organização dos apoiadores e na retomada de símbolos associados às esquerdas.
O cenário foi observado em Petrópolis, Lula ampliou a participação nos votos válidos em 8,52 pontos percentuais entre os turnos. Como mostrou o Correio Petropolitano em matéria anterior, embora Flávio Bolsonaro (PL) tenha mantido a maioria no município, a diferença entre os candidatos diminuiu consideravelmente na segunda etapa da votação.
No cenário nacional, a disputa mudou de direção. Flávio terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. No segundo turno, o petista foi reeleito com 51,79%, enquanto o senador alcançou 48,21%. Foi a primeira vez que um candidato presidencial que terminou a primeira etapa em segundo lugar venceu a disputa no Brasil.
“Ainda estamos tentando compreender o que aconteceu. Certamente, o que vivemos nas últimas três semanas, entre o primeiro e o segundo turno, será objeto de estudos e pesquisas pelos próximos anos. Foi inédito o que experimentamos”, afirma Coutinho.
Memória política
Entre as hipóteses levantadas pelo professor está o que ele define como uma campanha de esclarecimento político promovida pela sociedade civil. Na avaliação de Coutinho, grupos e movimentos sociais atuaram nas ruas e nas plataformas digitais para recuperar a memória do governo Jair Bolsonaro e discutir os possíveis efeitos de uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro, especialmente em relação a cortes, retrocessos e à descontinuidade de políticas públicas.
Outro ponto destacado por Coutinho é o arrefecimento dos efeitos da Operação Lava Jato sobre a opinião pública. Segundo ele, o movimento contribuiu para a rejeição das esquerdas, de suas lideranças e de seus símbolos políticos. Durante a campanha de 2026, no entanto, o professor observou a retomada dessas referências por parcelas da juventude.
Na avaliação do cientista político, a recuperação desses símbolos ajudou a fortalecer a presença de apoiadores nas ruas e a construir vínculos políticos e afetivos. O professor ressalta que os efeitos das manifestações não devem ser subestimados, embora considere necessário aprofundar os estudos para compreender o peso de cada elemento no resultado das urnas.
Redes sociais e mobilização
A disputa digital, que segundo o cientista produziu um “tsunami comunicacional”, também é apontada como um dos elementos centrais para compreender a campanha. Coutinho afirma que setores da esquerda e grupos contrários ao bolsonarismo passaram a utilizar redes sociais e aplicativos de mensagens de maneira mais articulada, em um ambiente que, segundo ele, era anteriormente hegemonizado pelo chamado “Partido Digital Bolsonarista”, expressão utilizada pelo professor Marcos Nobre.
O compartilhamento de conteúdos, a organização de ações sincronizadas e a divulgação de manifestações contribuíram, segundo Coutinho, para conectar a mobilização virtual às atividades presenciais. Dessa forma, as redes sociais não teriam funcionado apenas como espaço de debate, mas também como ferramenta para organizar e ampliar a participação em atos públicos.
Em Petrópolis, o ato pró-Lula realizado na véspera do segundo turno exemplifica a presença dessa mobilização no cenário local. Cerca de 13 mil pessoas se concentraram na Praça Dom Pedro II, de onde os participantes seguiram em caminhada pelo Centro até a rodoviária da Rua Paulo Barbosa. A mobilização ocorreu na reta final da campanha presidencial e antecedeu o segundo turno, no qual Lula ampliou a votação no município.
Para o professor, a combinação desses fatores ajuda a compreender o crescimento da votação de Lula e a mudança no resultado nacional entre os dois turnos. Ele pondera, porém, que o processo não pode ser explicado apenas pela transferência de votos entre candidatos.
“Mais do que uma simples transferência de preferências eleitorais, podemos estar diante de um processo no qual a mobilização social, a disputa comunicacional e a recuperação de repertórios simbólicos se combinaram, alterando as condições em que os eleitores avaliaram os dois candidatos”, finalizou.