Por Leandra Lima
Reconhecimento, ou reconnaissance, nasceu do latim recognoscere, que significa tomar conhecimento, admitir algo verdadeiro, validar uma trajetória ou ação. Levando então ao autoconhecimento e à liberdade de ecoar a própria voz e de uma comunidade. Esse recorte da palavra é retratado na exposição fotográfica ‘Um Pedaço de Mim’, criada por Douglas Ramos, que atravessa a história do próprio autor que se entrelaça a muitas outras vivências da população negra da cidade de Petrópolis. Ecoando as vozes e a potência da comunidade que carrega uma grande riqueza dentro do território.
A exposição joga luz neste mês da consciência negra, no sentido de reconhecer a luta e a força do povo preto em si mesmo. “Identidade, vivências que muitas vezes não encontram espaço e visibilidade e que também posso trazer também como uma forma de denúncia ou crítica, mesmo porque igual a mim tem uma foto lá que faço crítica ao feminicídio e aí a gente traz dados em todas elas. Outra foto, trago em relação às religiões de matriz africanas também. Trago também a força, a potência e a nossa busca por titulação até o Quilombo da Tapera, que é o único quilombo remanescente da nossa cidade”, expressou o autor.
Nascimento
A exposição nasce de uma inquietação pessoal e acadêmica do artista. Estudante de Serviço Social com formatura prevista para 2027, o Douglas quis ir além da fotografia autoral, focando em histórias, identidades e vivências que muitas vezes não encontram espaço e visibilidade na sociedade brasileira e petropolitana. Pois a cidade é famosa por silenciar e apagar as raízes e contribuição da comunidade negra.
Segundo o fotógrafo, o projeto começou a tomar forma a partir de estímulos do Mês da Consciência Negra, em novembro do ano passado. Inicialmente, a proposta era outra. O trabalho teve início com ensaios focados em uma única protagonista, mas, conforme as ideias evoluíram, o conceito foi totalmente reformulado para o projeto atual.
“Inicialmente o projeto tinha uma proposta diferente, seria uma coisa diferente, já tinha até escrito tudo, mas aí, conforme fui desenvolvendo as ideias, cheguei num lugar que já mudei tudo. Comecei a convidar pessoas de diferente realidade, todas essas pessoas que fazem parte da exposição hoje, são pessoas da comunidade da cidade, desde Vila Rica até o centro da cidade. Temos duas pessoas do Quilombo da Tapera, uma do Vila Rica, três no Mangalarga, uma pessoa do Sargento Boening, do São Sebastião, Chapa 4, Bairro da Glória e Thouzet. E aí, cada foto foi pensado em construir significados”.
Cada fotografia possui significados, como expressou o fotógrafo, oscilando entre temas como denúncia, feminicídio, fé dando destaque às religiões de matriz africana. Para Douglas é um caminhar que abraça a ancestralidade e o reconhecimento da própria trajetória.
“Mais do que uma exposição fotográfica, este trabalho é uma forma de olhar para dentro. É uma oportunidade de se permitir olhar para si mesmo e se reconhecer naquilo que estava construindo”, disse.
Mãos que se entrelaçam
A obra foi realizada por muitas mãos. Um dos nomes que ajudaram nessa construção foi o fotógrafo Alberto Lorenzi, o professor Rubens Rodrigues, historiador e educador da Educafro, que desenhou perguntas cruciais para um cantinho íntimo de letramento racial. Nessa ala, tem um momento marcante, pois é onde as folhas brancas de letras pretas conversam com papéis escuros onde o traço manual da caneta branca eterniza relatos anônimos de pessoas pretas, permitindo que cada um que for à exposição possa fazer parte dessa vivência, contribuindo com algum relato e também encontrando acolhimento em meio a tantas histórias.
“E a proposta disso foi criar um momento de reflexão, né, de escrita também. Permitindo que outras vozes façam parte da exposição com a escrita e com o letramento racial. Queria que não fosse a fotografia em si nesse momento. E esse foi o processo de colaboração, a troca, a construção coletiva. Que nasceu um pedaço de mim, porque um pedaço de mim acaba abraçando um pedaço de todos nós”, expressou o criador.
Momentos marcantes
A primeira foto exposta carrega a raiz da própria árvore genealógica de Douglas sendo um tributo à matriarca da família, a mãe. E enaltecendo as mulheres negras que também são representadas pelas irmãs. A escolha reflete uma forte crença na força feminina e no reconhecimento de quem sustenta e mantém a base de tudo.
“Acho que isso tem muita potência, porque inicialmente, no dia da abertura. É parte da minha árvore genealógica, que é a minha mãe e as minhas duas irmãs. Então, trouxe elas pra dentro desse cenário, sabe? De tipo, vou olhar pra mim, mas primeiro preciso pensar qual é a minha força hoje, né? O que me mantém? E aí trouxe as três. Acredito muito na força feminina”, contou.
O artista enfatiza que cada marca da sua própria vida está expressa na montagem. “Foi feita na raça, na coragem e no afeto, entre chuvas que mudavam os planos, risos, correres e aquela sintonia fina onde tudo finalmente fluiu com a força de um rio. Entregamos um trabalho potente, pulsante e radicalmente coletivo, porque, no fundo, um pedaço de mim é, indissociavelmente, um pedaço de todos nós”, falou.
Para Douglas, mais do que tocar nas feridas abertas do racismo, a exposição transborda fé, ancestralidade, beleza, existência, espiritualidade, pertencimento e a urgência visceral de reconhecermos as próprias histórias. “Meu maior desejo é que cada pessoa negra que cruze esse espaço consiga se enxergar, se abraçar e se reconhecer viva nas imagens, e que quem caminha ao lado saia dali transformado por novas perspectivas e reflexões profundas. No fim das contas, o título diz tudo sobre o que fomos e o que deixamos”, ressaltou.