Valores acima da média, pouca variação entre postos e impacto da guerra do Irã preocupam moradores
O alto preço dos combustíveis em Petrópolis foi tema de uma audiência pública realizada na última quinta-feira (16) na Câmara Municipal. O encontro reuniu representantes do poder público, órgãos de defesa do consumidor, setor de combustíveis e trabalhadores do transporte, em meio a reclamações sobre valores elevados, pouca variação entre postos e possíveis reflexos da guerra no Irã.
Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que, entre os dias 5 e 11 de abril de 2026, a gasolina comum teve preço médio de R$ 7,23 na cidade, chegando a R$ 7,29. Já a gasolina aditivada apresentou média de R$ 7,34, com valor máximo de R$ 7,39. Para o vereador Thiago Damasceno, presidente da Comissão de Transportes e Mobilidade Urbana, a audiência foi motivada por uma série de reclamações da população. “Um dos principais motivos que levaram à convocação dessa audiência pública são as diversas demandas recebidas pela comissão, feitas por moradores e consumidores, principalmente em relação ao preço dos combustíveis nos postos da cidade, onde há uma reclamação de que nós temos os preços muito mais altos em comparação às cidades mais próximas”, afirmou.
Outro ponto levantado foi a semelhança entre os valores praticados nos postos. “A segunda indagação é em relação à diferenciação dos preços dos postos em Petrópolis. Os preços praticados entre os postos ficam todos alinhados, e isso não é normal”, disse o vereador. Ele também destacou a preocupação com o cenário internacional. “O terceiro tema é em relação ao risco de desabastecimento dos postos na cidade, visto a situação geopolítica do mundo.”
O impacto é sentido diretamente por quem depende do combustível para trabalhar. O presidente da Associação dos Taxistas de Petrópolis, Josemar Carvalho, afirmou que a alta nos preços afeta todo o sistema de mobilidade. “A gente é impactado pela situação. Nós somos da Região Metropolitana e temos diversas refinarias no nosso ‘quintal’, e mesmo assim temos um dos combustíveis mais caros da região”, disse. Ele também reforçou os reflexos no dia a dia da categoria: “Tá impactando diretamente o transporte na cidade, não só o transporte individual de passageiros, mas também o transporte coletivo que já vem doente há algum tempo.”
Durante o debate, também foram apresentados fatores que compõem o preço final dos combustíveis. Segundo o advogado Patrick Machado, do Conselho em Defesa do Consumidor da OAB Petrópolis, é preciso entender toda a cadeia. “A gente precisa entender porque pagamos esse preço que chega nas bombas. Já existe um percentual de cerca de 27% ligado à distribuição e ao refino, além de 22% de ICMS e tributos federais em torno de 10%”, explicou. Ele também demonstrou preocupação com possíveis irregularidades. “Se de fato nós estamos diante não do paralelismo e sim de um cartel, estamos falando de crime contra a ordem econômica e contra o consumidor”, afirmou. Para ele, a situação exige investigação: “Temos que fazer uma força-tarefa com todos os órgãos de defesa do consumidor para verificar o que está acontecendo.”
Já o coordenador do Procon Petrópolis, Fafá Badia, afirmou que não há comprovação de cartelização, mas reconheceu distorções. “Eu não posso comprovar que há um alinhamento ou uma cartelização. Mas a gente tem que ficar atento e discutir isso, nem que seja para mudar essa cultura de que Petrópolis é uma cidade cara”, disse. Ele também destacou os limites da atuação dos órgãos de fiscalização: “Os Procons municiam o Judiciário, a ANP, a Senacon, e quase sempre dá nada.”
Do lado dos postos, o argumento é de que os custos são semelhantes e influenciados pelo cenário internacional. O representante do setor, Adriano Costa, explicou a dinâmica da cadeia de abastecimento. “O custo é todo muito parecido. Eu sou o último elo, eu revendo. Antes de mim tem a distribuidora e depois a refinaria ou o importador”, afirmou. Ele também relacionou o cenário global aos preços. “Com o petróleo a 105 dólares, as importadoras pararam de importar. O mercado independente, que ajudava a equilibrar os preços, praticamente secou”, disse. Sobre o abastecimento, fez um alerta: “O risco é para os mercados de pesados, o diesel.”
Ao final da audiência, a comissão informou que seguirá acompanhando o tema e deve encaminhar propostas. Entre elas, estão o envio de um pedido ao governo do estado para avaliar um possível subsídio ao diesel e o reforço na fiscalização. “A comissão vai continuar no trabalho de acompanhamento, fiscalização e encaminhamentos a partir de tudo que foi dito aqui na audiência”, concluiu Thiago Damasceno.