Um vídeo publicado nas redes sociais pelo maestro Marco Aurélio Xavier voltou a colocar o Coral Meninas Cantoras de Petrópolis no centro de um dos debates mais delicados da história recente da cidade. Na gravação, intitulada “Sou muito pior do que disseram”, o fundador e regente do grupo minimiza as denúncias reveladas pela Revista Piauí e afirma que seus críticos perderam tempo ao não entrevistá-lo. Em seguida, faz declarações que provocaram forte repercussão ao citar o nazismo como referência para responder às acusações.
“Tem uma revistinha aí, uma repórter, sabe, que juntou umas testemunhas e falaram tudo de mal contra mim. Perderam tempo, que se tivessem me entrevistado, eu sou imensamente pior do que escreveram. Eu teria as maiores barbaridades para falar sobre mim. Afinal, meus grandes mestres foram nazi… nazistas. Fica a dica”, afirmou.
A manifestação ocorre poucos dias após a publicação da reportagem da jornalista Cristina Fibe, da revista piauí, que ouviu dezessete ex-integrantes do Coral Meninas Cantoras de Petrópolis. As mulheres relataram episódios de assédio moral, humilhações, constrangimentos e, em alguns casos, abuso sexual supostamente praticados pelo maestro durante décadas.
A repercussão das declarações levou outras mulheres a procurarem a imprensa. Além das entrevistadas pela revista piauí, o Correio Petropolitano conversou com três ex-coralistas que afirmam ter vivido situações semelhantes quando integravam o coral. Seus relatos são apresentados ao longo desta reportagem.
Durante décadas, o Coral Meninas Cantoras de Petrópolis foi símbolo de excelência artística e orgulho para a cidade. Criado em 1976 pelo maestro Marco Aurélio Xavier, o grupo alcançou projeção nacional e internacional, participando de programas de televisão, gravações musicais e apresentações em diversos estados brasileiros.
No auge da popularidade, as meninas cantoras se apresentaram em programas como Planeta Xuxa, Fantástico e A Praça é Nossa. Gravaram com artistas como Ivan Lins e Simone e receberam elogios de personalidades da música internacional. O produtor George Martin, conhecido pelo trabalho com os Beatles, chegou a afirmar que o coral se apresentava “como se fossem anjos”.
Medo, abuso e pressão psicológica
Por trás da imagem de disciplina e perfeição, entretanto, ex-integrantes afirmam ter vivido experiências marcadas pelo medo, pela pressão psicológica e por situações que hoje identificam como abusivas. Segundo a apuração da revista piauí, dezessete mulheres, atualmente com idades entre 24 e 60 anos, decidiram relatar pela primeira vez episódios ocorridos durante a infância e adolescência dentro do grupo.
Entre os relatos estão proibições consideradas excessivas, humilhações públicas, gritos constantes e situações que causavam constrangimento às integrantes. Algumas afirmaram que tinham medo de pedir autorização para usar o banheiro durante ensaios e apresentações. A reportagem também trouxe acusações de abuso sexual. Mulheres que participaram do coral em diferentes períodos relataram episódios de contato físico inadequado quando ainda eram menores de idade.
Reações
Após a publicação do vídeo, o caso repercutiu entre autoridades, instituições e representantes políticos de Petrópolis. A 3ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Petrópolis divulgou uma nota de solidariedade às ex-coralistas e informou que acompanhará o caso. Vereadoras do município também se manifestaram publicamente. Nas redes sociais, a vereadora Júlia Casamasso criticou a impunidade em relação ao caso. A vereadora Lívia Miranda também condenou o episódio.
Legislação
A Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997, prevê punições para crimes resultantes de discriminação ou preconceito. No artigo 20, a legislação proíbe fabricar, comercializar, distribuir ou divulgar símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que façam apologia ao nazismo, ou seja, que promovam ou incentivem essa ideologia. O Correio Petropolitano entrou em contato com a Polícia Civil e o Ministério Público sobre o caso, e aguarda um posicionamento.