Em uma rotina que exige produtividade constante, observar os movimentos da natureza pode ser um convite para reconhecer diferentes fases, respeitar o próprio tempo e desenvolver uma relação mais consciente consigo mesmo
Em uma sociedade marcada pela velocidade e pela busca constante por desempenho, períodos de cansaço, dúvida, pausa ou mudança podem ser vistos como obstáculos a serem superados. Mas reconhecer essas fases também pode fazer parte do autocuidado, ajuda ndo a perceber limites, necessidades e transformações que acontecem ao longo do tempo.
A natureza não floresce o ano inteiro. Existem períodos de crescimento, pausa, transformação e renovação, e nenhum deles é permanente. Nós também atravessamos diferentes fases, embora a rotina muitas vezes faça parecer que é preciso estar sempre no mesmo ritmo, produzindo, avançando e dando conta de tudo. Observar os ciclos do ano pode ser, nesse sentido, um convite para olhar para os próprios ciclos e reconhecer que nem todo momento exige a mesma coisa de nós.
Essa percepção se aproxima dos princípios presentes na filosofia do yoga, que valoriza a presença e a observação de si. Na prática, isso significa perceber o corpo, a respiração, os pensamentos e o estado emocional sem necessariamente tentar modificá-los o tempo todo. A própria prática de yoga vem sendo estudada por seus possíveis efeitos sobre o estresse e o bem-estar, com pesquisas apontando benefícios para a redução do estresse percebido e a melhora da qualidade de vida.
Para Alessandra Pavão, professora de Yoga e fundadora do Espaço Kamala, essa relação com os próprios ciclos pode ser um exercício de autoconhecimento. “A gente viv e em uma sociedade que nos cobra constância, como se precisássemos estar sempre produzindo, dispostos e avançando. Mas nós também temos ciclos. Há momentos em que precisamos recolher, outros em que temos energia para criar e expandir. O yoga nos ajuda a perceber isso e a estar mais presentes no momento que estamos vivendo”, explica.
Isso não significa, porém, que cada estação determine como as pessoas devem se sentir ou agir. Os ciclos da natureza podem ser utilizados como uma referência para reflexão, mas cada pessoa atravessa suas próprias fases, que nem sempre coincidem com o calendário.
“Podemos estar na primavera e, internamente, atravessando um momento de recolhimento. E tudo bem. A ideia não é lutar contra isso, mas perceber onde estamos e acolher esse momento. Quando conseguimos identificar o nosso próprio ciclo, talvez seja mais fácil entender o que precisamos”, afirma Alessandra.
A própria natureza oferece uma imagem para essa compreensão. Há períodos em que é necessário criar raízes, outros em que há espaço para expansão, momentos de transformação e também de encerramento. Mais do que reproduzir esses movimentos, a proposta é utilizá-los como um convite para pe rceber que mudança, pausa e recomeço também fazem parte da experiência humana.
É a partir dessa reflexão que surgiu o Estações do Ser, uma jornada de desenvolvimento humano criada pelo Espaço Kamala, em Petrópolis. Ao longo de um ano, o projeto acompanha as quatro estações por meio de experiências que integram yoga, meditação, respiração, filosofia, alimentação, contato com a natureza e rodas de conversa. Cada encontro também tem um dos sete chakras como fio condutor.
“Não queremos determinar o que cada pessoa deve sentir porque chegou uma determinada estação. A ideia é oferecer uma experiência que desperte uma reflexão sobre aquilo que aquele período da natureza pode nos ensinar e, a partir daí, cada um perceber o que faz sentido para o seu próprio momento”, explica Lily Pereira, professora de Yoga e coordenadora do projeto.
A jornada começou no inverno, com o tema “Enraizar para Florescer”, dedicado ao Chakra Raiz (Muladhara). O encontro trabalhou conceitos como presença, estabilidade, segurança, confiança e pertencimento, propondo um momento de desaceleração e fortalecimento das bases.
Com a chegada da primavera, a jornada entra em uma nova etapa. O próximo encontro será dedicado ao Chakra Sacral (Svadhisthana), dentro da proposta de trabalhar temas relacionados ao movimento, à criatividade, à leveza e ao florescimento.
“Começamos no inverno olhando para aquilo que nos sustenta. Agora, a primavera nos convida a colocar essa força em movimento. É uma continuidade: aquilo que foi cuidado como raiz pode começar a ganhar novas formas”, afirma Lily.
Mais do que encontros isolados, o projeto propõe acompanhar os diferentes ciclos ao longo de um ano, mantendo entre uma estação e outra as reflexões e práticas vivenciadas em cada etapa. O próximo encontro do Estações do Ser acontece em 19 de setembro, em Petrópolis, e marca a etapa dedicada à primavera .
Para Alessandra, a principal lição pode estar justamente na possibilidade de abandonar a ideia de que é preciso florescer o tempo todo. “A natureza não tem pressa para chegar à próxima estação. Talvez uma das coisas que possamos aprender com e la seja respeitar mais os nossos processos. Nem sempre é tempo de florescer. Às vezes é tempo de criar raízes, de descansar, de deixar ir ou simplesmente de estar presente.”
O Espaço Kamala, localizado em Nogueira, oferece aulas de diferentes modalidades de yoga e promove atividades voltadas ao bem-estar da comunidade, como os aulões gratuitos mensais e o projeto Estações do Ser. Mais informações no Instagram @yogaespacokamala.