Pilar é uma estrutura base do sustento para toda uma edificação. A analogia é bem visceral quando se traz para o cotidiano social brasileiro, onde a mulher negra é considerada a base social. Não à toa, a filósofa Angela Davis, expressa a força do grupo em todos os âmbitos, na frase – “Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela” -. Na história, principalmente no Brasil, existem diversos exemplos de guerreiras que lutaram pela proteção de seu povo, nessa linha do tempo, Petrópolis tem as próprias protagonistas e pilares do resguardo e preservação da memória ancestral.
Começo
Essa cronologia começa lá no século dezenove quando a “Cidade Imperial” tinha apenas quatro anos. A heroína da história é Sebastiana Augusta da Silva Correia, fundadora da matriarca do Quilombo da Tapera. Anciã que lutou para fundar o espaço de resistência e dignidade dos negros escravizados alforriados. Ela recebeu as terras de seu antigo senhor, Agostinho Corrêa da Silva Goulão.
Sebastiana foi ama da fazenda, recebeu o nome que possuía de Agostinho, viveu 120 anos, era rezadeira, uma arte que hoje ainda resiste na região e conhecedora de ervas medicinais. O Território era povoado por negros africanos puros e atualmente, os descendentes mantêm a história e os conhecimentos vivos, em meio da luta pelo resguardo e direto a terra. As mulheres têm uma grande participação nesse movimento.
Mulheres de fibra
O território passou por diversas tentativas de extinção, porém sobreviveram. As mulheres que vivem na comunidade possuem um papel fundamental nessa permanência, a diretora de Cultura da Tapera, Denise André Barbosa Casciano, ressalta que mulheres quilombolas são sinônimo de resistência. “Temos um papel imprescindível nas lutas, pelo território, preservação e transmissão dos nossos saberes. E hoje, nós, mulheres quilombolas, estamos ocupando mais espaços, almejando uma sociedade justa e igualitária, pois ainda existe muita invisibilidade ao redor das nossas causas. Sinto isso na pele todos os dias, assim como as outras mulheres aqui do Tapera”, disse.
Denise conta que só se reconheceu a luta e a força que tem, através de Adão Casciano, uma das lideranças do quilombo que a levou para os congressos sobre titulação e direitos à terra. “O Adão que fez a nossa associação, ele começou com a luta. E dali comecei a sair com ele também, para o congresso de comunidades quilombolas. E nesse congresso, vi mulheres resistentes, protestando sobre os direitos. Aí pensava, meu Deus, no nosso território também tem que ter mulheres assim. Mulheres fortes, de fibra, lutando pelos seus direitos”, relembrou.
Nessa trajetória de reconhecimento, a diretora de Cultura, foi movendo as estruturas de Petrópolis, conhecida por apagar toda história e contribuição de mãos negras, principalmente de corpos femininos, e se entendo como mulher quilombola. “Comecei também a participar de eventos com mulheres. Hoje, sinto que dentro do território, sou uma mulher pra elas de referência. E eu quero ser essa figura, para assim, como outras mulheres abriu caminho pra mim, também quero abrir pra elas, essas que estão chegando agora. Minha felicidade maior é saber que minha luta não está sendo em vão, assim como minha Tataravó Sebastiana resistiu os sofrimentos e injustiças na sociedade”, enfatizou.
Ela continuou ressaltando a importância de a cidade reconhecer a Tapera. “Lutarei para que tenhamos o reconhecimento e a valorização da nossa história e do nosso futuro como população dentro da cidade, que insiste em negar a nossa existência e a importância dos nossos antepassados na construção dela, inclusive das nossas mulheres, pois elas eram as cuidavam da casa dos filhos dos escravocratas e ainda tinham que servir eles como mulher, não tinha nem o direito de cuidar e amar os próprios filhos”, frisou.
Frutos
Como disse Angela Davi, a sociedade movimenta junto com as mulheres negras, esse recorte se potencializa na realidade da Tapera, onde vários corpos femininos se juntaram e organizaram junto a Coletiva Feminista Popular, na figura da parlamentar Júlia Casamasso (Psol) e oficializaram na Câmara Legislativa o ‘Dia Municipal da Mulher Quilombola’, comemorado no dia 25 de julho.
As mulheres do território: Sebastiana, Tereza, Sandra, Cristina, Cida, Sandra Helena, Maria José, Fatinha, Eva, Denise, Beth, Baixinha, Fernanda, Vivian, Silvia, Thaís, Angélica, Raissa, Érica, Suelem, Gisele, Vitória, Dudinha, Larissa, Flavinha, Liz, Sofia, Kethellen, Ana Júlia, Laurinha, Ana Alyce e Valentina, ecoam a mensagem:
“A data confere visibilidade a luta do povo quilombola e reconhecimento de que as mulheres também fazem parte dessa história de resistência, não só pela valorização da cultura negra, mas também, como diz Denise André Barbosa Casciano, mulher negra e quilombola: “contra qualquer tipo de racismo, machismo e violação de nossos direitos e corpos, em uma cidade que insiste em negar nossa existência”, trecho da fala.
Sebastiana
A força e o legado de Sebastiana Augusta da Silva Correia permanecem vivos, para Denise e todas as meninas e mulheres ela é a base e orgulho. “Sebastiana, para mim, é o símbolo da resistência aqui dentro de Petrópolis. Porque uma mulher negra que resistiu todo esse apagamento por 120 anos, ter tido que criar os filhos dela dentro desse apagamento e ser a cabeça da família, deve ter sido difícil, mas ela não cedeu. Acho que hoje, ela vendo a gente, está muito feliz pela nossa resistência aqui dentro do território. O que ela não conseguiu, estamos conseguindo. Ela é nossa rainha e referência “, ressaltou Denise sobre a tataravó.






